plástico contagioso

•13/12/2009 • Deixe um comentário

POR FELIPE EUGÊNIO

Uns amigos dizem que para reconhecer um esteta, basta privar da companhia de um. Há cada vez menos deles por aí, comentava um desses amigos meus. Mas ver um era o suficiente para sabe-lo. Estetas, pelo que eu entendia, em cena aparentavam alto-relevo. Segue simples o protocolo que cumprem tais seres: são mulheres e homens que existem numa dimensão sempre desdobrada. Esta que, não sendo dupla pela esquizofrenia, se dá quando leem o mundo como quem, ora só! , como quem lê. Não é mais metáfora como mensagem. A leitura das coisas no entorno e de si, é um exercício de consumir o artifício de algum autor de bom gosto; se possível, de bom gosto e ousado. Mas não sendo leitores fáceis, os estetas prestam mais atenção nas estratégias artísticas dos jogos de palavras do que nas histórias em si – e que, por sinal, eles adoram quando são banais as histórias narradas; isso ressalta a arte de embaralhar frases, dá graça ao narrar, engorda e faz crescer.

Os estetas são capazes das maiores barbaridades. Estão no mundo para surfar por sobre ondas mnemônicas, desimportam os valores morais. Diante da vida, vale mais o sutil-extraordinário-de-Almeida: aquilo que dá à existência um pouco de luz e sombra para atropelar o mundo sem trilha sonora. Estetas são hedonistas sim, não há dúvidas: conquanto que num mundo noir, ressaltam os mesmos enquanto ajeitam seus elegantes óculos.

Encontrei com um desses no aeroporto. Julguei ser um homem que estava de partida e não errei. Usava nada como paletós, não era um sujeito distinto no vestir, outrossim, trazia nos olhos algo próximo do modo como cofiava a barba. Da barba, estava claro, gostava de pentear os fios com os dedos porque gostava do verbo “cofiar”, isso o levava para um outro ambiente; o rito substituía o motivo para o movimento. Cofiava a barba e poderia, num rompante, deferir um discurso insólito diante de um senado atônico; vá lá que sonhava assim. Olhava de um mesmo modo obtuso, desta vez, menos verbocêntrico, porém guardando no modo de observar certo jeito de filmar e ser, em simultâneo, filmado. Ele tinha o rosto de ator de filme dos anos 1970 em Manhattan, e fitava as coisas ao redor como um plano-sequência de Steiner se estivesse de fato no Marrocos – e aí os olhos, esses mesmos que serviam de câmera e de modelo, se perdiam em considerações sobre estúdios e externas para construir um filme clássico: afinal, não se poderia controlar o vento, claro; no entanto, o sol se permitisse ficar estourado na câmera, ah, certamente criaria uma atmosfera única, bastaria medir o suficiente para não cegar num clarão toda a fotografia e… E, assim, só de olhar meu companheiro de aeroporto em seu gestual típico, eu que nem me importo muito com a forma, já me contagio com sua performance. Estou mais que divagando, fiquei paralisado construindo uma alma para sua personagem wildeana. Das duas uma, ou maluco, ou viado. Qual chocaria menos minha mãe?

Descrever o tipo não ajudaria muito: eu me entregaria a detalhes e perderia o fascínio que a figura despertava em mim. Nesse ponto, devo esclarecer sobre essa minha falta do que fazer. Não sou um deslumbrado por pessoas em geral. Tampouco vou justificar minha opção sexual para o quanto observo ou não um gênero. Ao passo disso, de “esclarecências”, padeço de uma curiosidade grande por coisas enigmáticas. E valem, nessa seara, as mais bobas coisas enigmáticas. Ou seja, valem os mitos populares para me fazer roer a unha. Se me vejo diante de uma história instigante ou de uma sentença mezzo metafísica, só sossego até saciar empiricamente meu ceticismo. Assim foi com o leite e a manga, meu début quando pequeno. Depois, na puberdade, vieram fugas de casa para encontrar o fim do arco-íris; seguidas de apontar dedo para estrelas, de chutar macumba, de ver se cobra preta mamava, de seguir anão pela rua para ver o que fazem; coisas do gênero que por vezes assaltavam meu cotidiano. O esteta do aeroporto foi uma dessas compulsões de curiosidade. Não tanto que me rasgasse. Não me contive, porém. Pra variar, variei.

Era um dandi ou um flanêur? Foi minha primeira pergunta. Ele, se tivesse ouvido, provavelmente escolheria o dandi. Faria isso só para ver minha reação e maior curiosidade sobre sua possível história de decadência. O esteta não ouvia meus pensamentos, e, felizmente, tampouco percebeu que eu o seguia desde que passou pelo check-in. Gosto de ver pessoas sem a afetação de se saberem observadas. A performance dele, do meu esteta, era distante de afetações. Acredito que ele só existia mesmo a partir do belo. O resto do mundo à exclusão da arte, tudo que fosse instintivo ou demasiado natural, se não passível de observação que resgatasse a coisa de sua gratuidade, decerto o entediaria a ponto de sequer estar nesse lugar real, com pés no chão. Tudo deveria ter a mão humana para produzir sentido. Reconheci isso quando ele brincou com duas crianças na fila. A mais nova, o bebê, pouco lhe interessou, embora fosse adorável de tão bonito e brincalhão. Tá certo que babava e, depois vi, gofou no pai quando resgatado do carrinho. O segundo, irmão do pequeno gofador, de idade tinha cerca de cinco anos e era falante; esse sim foi agraciado com o agachamento do homem e umas palavras que, não de muito perto, pude perceber ser uma série de trocadilhos – mais sonoros que semânticos – com os quais o esteta brincava com o filho alheio. Um esteta gosta de emburacar numa genealogia do criativo, e nada melhor que um ser humano com cinco anos. Um bebê é a pré-história do homem. Serve não, é muito limitado. Não saber manipular códigos é viver numa gratuidade, no nulo da estilística. Cadê o impacto no receptor?… Incrível eu escrever isso agora. Costumava pensar que tais coisas eram boçais porque pareciam perfumaria. E parecem. E estou confuso. Contagiado ou afetado?

Só não maior é minha confusão de agora, de ordenado-autor (e não o inverso), do que quando, no aeroporto, vi meu amigo esteta sair da fila e, num átimo, ultrapassar a saída do saguão para a rua.

Ué?

Dominando meu “ué”, parti para segui-lo. Não era agora um mero anão-a-ser-pesquisado, era um tipo que ninguém seguiria, sem ditos populares que cercassem o mito. Meus amigos adorariam saber o desfecho da coisa. Um esteta – diziam – é, afinal de contas, um previsível pelo luxo de poder dispensar condições materiais diante da fortuna do espírito. Qual o quê?! Eles viajam muito nessas frases que servem de epígrafe. De cara, eu achei que o esteta estivesse correndo para o banheiro – a natureza chamando o homem afinal. Mas não, ele saíra mesmo do aeroporto. Não me fiz de rogado e o segui. A velha e típica cena quando entramos esbaforidos num táxi: siga aquele carro. Os motoristas – eles sim, com senso estético invejável – além de não rirem do lugar-comum, não obedecem ao roteiro: saem com o carro como sairiam com qualquer passageiro, numa boa, numa paz de acelerar só o suficiente, de saber que carro a gás ainda é mais rentável que a gasolina, pensamentos soltos assim, vagarosos tanto quanto inúteis para uma perseguição.

No entanto, essa saída nada espetacular do meu táxi foi suficiente para alcançar o do esteta. Eis o segredo: engarrafamento na saída da Ilha. Desses proveitos de uma cidade imensa para perseguições do gênero de suspense. Perseguir sem suar é possível na cidade maravilhosa. Em São Paulo, perseguir sem suar é regra; e, para o bem da saúde, estando numa marginal, sem respirar é conselho. Melhor que tudo isso, só o mundo das intempéries: a falta de tomadas de energia elétrica nos carros de praça. Enquanto aguardo sairmos os dois táxis da Linha Vermelha, estes escritos tomam forma no laptop. Diante da bateria apagando, cesso a coisa de rabiscar e sigo aqui, parado, seguindo outro alguém sem seguir escrevendo. E aí fico cacofônico. E por que me importo com isso é que não sei.

É um esteta… Bateria acabando, mas tenho de escrever isso que agora vejo: ele é um esteta de fato! A cena que avisto do meu taxi, não estivesse a rádio sintonizada em programa de louvores evangélicos, seria… cada tecla menos energia…

Mesmo no taxi engarrafado, o puto fuma. E o cigarro não é um qualquer. Daqui dá pra ver… A fumaça que sai pela janela aberta é bonita. Formato semiespiral. Quem dera uma foto sépia nesse instante, quem me dera; maldito seja o celular mais barato. O fio de meada, sinto que perco a boa forma na escrita, angústia de descrever sem escritura (…)

Pfíu

(desde o tempo de Alexandre, O Grande, esta era a onomatopéia para laptops que descarregassem à revelia dos autores desesperados)

amor fraterno

•10/11/2009 • 3 Comentários

chorando

Estava pensando em como criança é cruel. E, sobretudo, como eu fui cruel quando criança. Logo eu, essa bocó que sou hoje.

Minha principal vítima era minha irmã. Até ela ficar mais forte que eu.

Quando ela ainda era bebê, enchi a boquinha da recém-nascida irmã de miolo de pão. Eu vi que a pobre estava faminta. Minha mãe, no entanto, chegou a tempo de não ter uma filha falecida e outra presa por homicídio doloso.

Depois disso, taquei talco nos olhos da boneca predileta dela. Só porque mamãe chegou a tempo de eu não fazer isso na dona do brinquedo.

Mas a coisa que eu mais gostava de fazer era mostrar a ela uma ilustração de um livro de capa dura do Pinóquio. Era a parte em que o boneco de madeira fica preso na baleia, e a imagem era de um animal horrendo, com várias fileiras de dentes de uma boca escancarada por toda a página. Ela se desesperava, e eu, em meu mais alto grau de sadismo, me deliciava com todo o seu pânico. A bichinha tremia de medo. E eu de rir.

Mas isso passou logo. Ela teve muito mais força que eu ainda na infância, e toda vez que brigávamos – fisicamente falando – ela sempre levava a melhor. Eu sempre saía muito machucada, porém o meu terror psicológico deixou marcas nela até hoje, porque a maninha ainda morre de medo de mamíferos aquáticos.

Afetos de fato

•21/10/2009 • Deixe um comentário

kfzim

POR IONE NASCIMENTO

“natural é as pessoas se encontrarem e se perderem”.
(
caio fernando abreu)

certos gestos são tão peculiares que nos transportam a momentos igualmente singulares e é daí que sobrevivem as memórias afetivas ## a hora do café e o ritual que antecede o primeiro gole: a escolha do lugar, a mesa distanciada do vai e vem dos garçons; decidir entre descafeínado, capuccino, expresso, pingado, carioca, pequeno ou duplo ## aguardar a chegada das xícaras alinhavando palavras em conversas banais, (pré)sentir o aroma e então, o gesto: o envelope de adoçante levemente sacudido no ar, em seguida, rasgado apenas de um lado e, finalmente, despejado na bebida quente ## faz-se um silencio que apenas permite o som distante de um piano enquanto os primeiros goles vagarosamente são saboreados ## pequenos prazeres que certamente não se repetem com frequência e, por isso mesmo, se constituem prazeres (e pequenos porque valiosos) ## daí, sobrevivem as memórias e os afetos.

Notícias desinteressantes

•20/10/2009 • 3 Comentários

futebol

POR BIANCA KARAM ATHAYDE

 

Nunca consegui assistir a um jogo de futebol por inteiro, somente a pedaços esquartejados de comemorações de vitórias momentaneamente consagradas por um gol ou por coros de torcidas enfurecidas com qualquer jogada frustrada que não compreendo. Vejo somente uma bola rolando – para lados que me parecem idênticos – à revelia de jogadores que mais parecem fazer parte da mesma equipe… de luta livre. Sim, porque as regras são claras e valem pontapés, chutes, braçadas, piruetas pouco dignas, cabeçadas, touradas no abdômen alheio, tapinha na bunda (tapinha na bunda?)… enfim, vale tudo.

            Há pouco comecei a assistir a uma partida entre Vasco e ABC (seja lá o que a sigla signifique para os machos de plantão)… há pouquíssimo seria mais correto, pois, enquanto brinco de dedilhar desinteressadamente o teclado, a bola rola. Não só a bola, porque já vi até um dente rolar no meio de campo. Isso mesmo, um dente. Um jogador tenta impedir outro jogador de completar uma jogada. Eu não vejo perigo nenhum, portanto, também não entendo tamanho empenho de um jogador impedir o outro jogador de dar meio passo a frente. Porque nem isso o outro jogador (a futura vítima dessa arena moderna) conseguiu completar, nem meio passo adiante do beiço, que foi interceptado por um punho cruel de boxeador invicto. Cai o jogador e voa o dente… se a ordem foi inversa, me perdoem, não foi possível registrar. Só sei que o grande corpo ficou estirado esperando o médico da equipe, enquanto a câmera jamais conseguiria admitir que havia também um dente na grama.  

            Eu fico perplexa e fixo os olhos no canto da tela, só pra me certificar de que se trata, ainda, de um jogo de futebol. É um jogo de futebol, afirma convicto o marido no sofá. Sempre foi, eu é que ainda não havia dominado as regras. De fato, vale tudo, da cintura pra baixo, da cintura pra cima, vale até chute no colega do time, se este for muito inconveniente. E, para resolver conflitos, basta recorrer à sinceridade do Ricardinho do ABC, que chuta sem disfarce o jogador adversário e, quando o juiz aponta o cartão amarelo, coloca a mão na boca, mostrando ao juiz sua vingança pelo dente perdido do colega. Afinal, até no futebol deve haver um código de honra e, certamente, arrancar sem anestesia o dente de um jogador não vale.

A dama e a bandeira

•30/09/2009 • 1 Comentário

Timidez

 POR MONICA PINTO DA VEIGA 

Pedro era um rapaz muito envergonhado. Estava sempre com os olhos grudados no chão, caminhava devagar com as mãos nos bolsos, falava baixo e pouco. Só conversava se puxassem conversa com ele, nunca tomava a iniciativa. Não se olhava no espelho e evitava locais que pudessem refletir sua figura: achava-se esquisito. Gostava mesmo da internet com câmera desligada e dos jogos no computador.

 Certo dia, por curiosidade, resolveu passear pelas páginas de amigos no site de relacionamentos e encontrou um nome novo: Carol. Carol… Carol quem seria? No lugar da foto tinha uma carta comum de baralho, uma dama de copas. Tentando lembrar se a conhecia, apoiou o cotovelo na mesa e, olhando para o teto, esbarrou no teclado abrindo uma janela de conversa. Entrou em pânico, mas antes que pudesse desligar o computador, Carol respondeu com um “oi” todo florido. Pedro prendeu a respiração e por pouco não apertou o botão power. Respondeu um “olá”, e em seguida pediu desculpas. Carol quis saber por que ele pedira desculpas, Pedro não soube responder. Ele perguntou por que ela perguntara aquilo, Carol engasgou no teclado. Passaram horas fazendo perguntas para o outro, até que chegou a noite e chegou a hora do jantar e chegou a hora de dormir.

 Carol, no jeito de ser, era parecida com Pedro. Tinha vergonha dos seus cabelos ruivos que chamavam muita atenção e olhava para baixo quando caminhava. Não tinha o costume de conversar no computador, nem no telefone. Era uma moça muito quieta e quando escreveu o “oi” florido para o Pedro foi sem querer: queria ver como era aquele “oi” cheio de flores em volta. Mas Pedro respondeu em vez de desligar.

 No dia seguinte, quando Carol ligou o computador, Pedro já estava lá à espera dela. Conversaram, fizeram perguntas um para o outro e começaram a respondê-las. No terceiro dia, Carol chegou antes de Pedro e conversaram, contaram histórias das famílias, falaram de amigos, trocaram ideias sobre livros, revistas, músicas e filmes. Descobriram que gostavam dos mesmos livros, liam as mesmas revistas, baixavam as mesmas músicas e compravam os mesmos filmes.

Muito tempo se passou desde o primeiro encontro no computador. Pedro e Carol eram amigos, mas nunca tinham se visto. No computador, Carol era a dama de copas e Pedro era a bandeira do Flamengo. O vermelho e o preto predominavam, gostavam das mesmas cores.

 Um belo dia, descobriram que frequentavam a mesma sorveteria, pediam sempre o mesmo sabor, era possível que já tivessem passado um pelo outro sem saber. Marcaram um encontro: Pedro sugeriu o dia, Carol disse a hora. Pedro acreditou que a iniciativa de marcar o encontro havia sido dele, Carol pensou que fora dela. Pedro e Carol vestiriam camisetas vermelhas para que pudessem se reconhecer.

 No dia marcado, na hora combinada, Pedro e Carol chegaram praticamente ao mesmo tempo em uma sorveteria com muitas outras pessoas vestidas de vermelho. Tinha mãe com bebê no colo, 

tinha avô com bigodes grandes, tinha pais e filhos, tinha muita gente, todos vestidos de vermelho, saídos de uma festa no clube ao lado.

 Pedro, com as mãos nos bolsos, e Carol, com os olhos no chão, pareciam fazer parte da turma da festa no clube. Pedro com os olhos baixos e Carol com os braços cruzados foram se distanciando do balcão, foram andando para fora da sorveteria, foram caminhando para a beira da calçada até que esbarraram um no outro. “Desculpa!” exclamaram ao mesmo tempo em que se olharam. Pedro ficou encantado com aquela moça de cabelos vermelhos e olhos verdes, tão bonita que parecia ter saído de um dos contos de fadas que sua irmã mais nova costumava reler. Carol olhou para Pedro e sentiu faltar uma batida no coração quando ele sorriu ao pedir desculpas. Ele era mais alto que ela, tinha os cabelos castanhos claros e olhos cor de mel. Carol nem imaginava que aquele rapaz bonito era o Pedro com quem ela conversava. Um rapaz bonito daquele jeito nunca olharia para ela, a desengonçada de cabelos vermelhos. Não passou pela cabeça de Pedro que aquela moça linda era a Carol-dama de copas. Uma moça formosa assim não olharia para ele, sujeito tão esquisito.

 Nenhum dos dois disse nada, distanciaram-se um do outro, ainda olharam em volta. A sorveteria continuava cheia de pessoas vestindo vermelho. Nunca se encontrariam ali. Não era o dia, não era para acontecer.

 Pedro começou a caminhar com as mãos nos bolsos, de volta para casa, quando ouviu alguém gritar seu nome:

– “Pedro!” Quando ele se virou, estava Rodrigo, seu amigo de infância, ao lado da moça de cabelos vermelhos.

– “Que coincidência!” disse Rodrigo para ele. – “Encontrar você e Carol aqui na sorveteria hoje!”

 Carol e Pedro se olharam. A dama da copas e a bandeira do Flamengo deram lugar a uma bela moça de cabelos vermelhos e a um rapaz bonito com um sorriso contagiante. Pedro e Carol, envergonhados, mas satisfeitos, pediram um sundae de floresta negra, o sabor preferido dos dois, e conversaram de verdade pela primeira vez.

Criador e Criatura

•22/09/2009 • Deixe um comentário

devil

POR JULIO CESAR OLIVEIRA

 

Eu sei, isso pode até parecer uma heresia, ou um paradoxo. Entretanto, pensando do ponto de vista prático, acho que todo mundo está rezando errado. É isso! Temo ter encontrado a solução para um dos maiores problemas existenciais da humanidade: a luta entre o bem e o mal.

Era um dia de folga e, como tal, estava a relaxar em minha morada até que tive a ideia de passar num mercadinho, pois havia me lembrado de uma receita que não saboreava faz tempo e que muito me apetece. No caminho, passei por um pequeno templo, desses que brotam por aí, bastando uma cadeira de plástico, um quadro-mural, um microfone, uma potente caixa de som e ouvidos resistentes a todos os tipos de evocações e exaltações histérico-religiosas.

Na porta do recinto, sobre uma mesinha modesta de madeira antiga, um curioso livro me chamou a atenção. Na capa, estava escrito: Seu nome no livro de orações! Confesso que pensei numa traquinagem maldosa de adulto ao cogitar o nome de um vizinho chato ou chefe do trabalho, mas, antes de empunhar aquela caneta bic amarrada com barbante e com tampa mordida, caí num dilema: “E se eu colocasse o nome do capeta no livro? Será que rezariam pelo coisa-ruim?”. Sim, afinal dizem que a fé transforma e cura tudo e a todos. Pensem comigo, porque não param de culpar o diabo por todas as mazelas de nossa sociedade e passam a orar por essa criatura de Deus que só pensa em maldade?

Aquela ideia, que era para ser gozação, passou a fazer total sentido na minha cabeça. Imaginei de repente todas as igrejas, templos, seitas, terreiros ou seja lá o que for, orando pelo bem do Beu-Zebu, oras! Pensei na discriminação que o pobre anjo decaído vem sofrendo ao longo de milênios e as tentativas frustradas de ascender ao reino dos céus… No final de tantos sucessivos fracassos, o capeta só podia descambar para a maldade mesmo, como se “Dick Vigarista” fosse.

Todavia, como o poder dEle não se discute, lanço uma campanha: rezemos por Lúcifer! Chega de exorcimos, de história da maçã, quem nunca errou que atire a primeira pedra. Isso é injusto, pessoal! Quem sabe rezando não aplacamos a fúria de fazer o mal do dito cujo? Ou, então, podemos oferecer uma vaga de político em Brasília em meio a outros santos? Bem, se isso vai funcionar eu não sei. Mas, uma cadeira, lá no céu, ao lado de Deus, não seria tentador?

Era para ser ficcional.

•18/09/2009 • 4 Comentários

placa-30-anos1

 

Fiz 30 anos mês passado.

Nunca pensei que fosse chegar esse momento, mas ele veio. Rapidamente, aliás.

Pensei em fazer outro piercing, mais uma tatuagem ou, até mesmo publicar um texto neste blog, mas não fiz absolutamente nada. Quer dizer, fiz uma festa. O que fez me sentir muito popular, porque faltou muita gente e, ainda assim, lotou.

Era para ter mudado muita coisa, mas não mudou.

Sim, saí da casa de mami, tô ganhando melhor (o que não significa que seja bem ainda), tenho mais amigos, minhas amigas antigas estão mais próximas, sei escrever direto no computador – é bem verdade que agora o faço no papel, no meio de uma palestra incrivelmente chata de minha 3ª pós-graduação – e aprendi a comprar roupa sozinha.

Sei o que não quero mais e achei, quando criança, que teria nesta idade: muitos filhos, casamento e casa com quintal. Não quero filhos nem casamento e prefiro apartamentos.

Aprendi a engolir sapos, ideologia e choro. Chamam isso de maturidade. E eu me acho uma adolescente.

E é difícil, sim, fazer essa idade que Honoré marcou tanto. Filho da puta! Ele falou bem, mas só serviu para nos marcar; nós, balzaquianas.

E vou seguindo, sem muitos planos, como sempre. Morrendo de medo de fazer 40.

Paciência de Sanat Kumara

•25/07/2009 • 3 Comentários

 

enfermagem tri

POR DANIELA MURAT

 

Eu fritando almôndega numa boca do fogão.  Ela refogando cebola na boca ao lado.
– A senhora tá mais gordinha, não tá?  (Pela segunda vez esta semana).
– Estou inchada por causa da medicação. (Pela segunda vez esta semana).
– Ah…
– O seu está queimando –,  digo de forma blasé enquanto ela, segurando o cabo da panela com uma mão e a colher de pau com a outra, contempla meu corpo edemaciado pelos hormônios.
– Ai, meu Deus!  Hi hi hi. – uma risadinha sem gracíssima –  Tô distraída…
– Tsc, Tsc, Tsc. – viro o rosto de forma negativa, denunciando minha desistência.
Não, meus caros, ela não possui cérebro. Foi formado, por engano, um paralelepípedo em seu lugar. Tenho que ter paciência, ela não tem culpa da embrionária anomalia.
Paciência, aliás, é a palavra de ordem desse meu momento. Uma empregada completamente insana, uma quantidade de hormônios inaláveis, injetáveis e ingeríveis de dar medo, um marido neurótico que não quer me deixar nem tomar um solzinho energizante para não fazer mal e uma expectativa para que tudo dê certo que arrepia minha alma. No centro de tudo isso, me encontro comigo.  Mas não devo ficar nervosa, esse tipo de sentimento não faz bem aos bebês.
O universo me enviou um curso intensivo de paciência, com direito a pós-graduação em abstração, mestrado em tolerância e doutorado em resiliência. Mas não é para menos.  Afinal, estou gerando  meu futuro elevado ao cubo. Já pararam pra imaginar o que pode significar isso?  Um caos de fraldas e chupetas e gritinhos urgentes de “manhê” , entre amedrontadores choros  de fome triplos, e só dois peitos.  Para onde foi a paciência, mesmo?
Mas há também as risadinhas hipnotizantes, aqueles “bocejinhos” angelicais e a cantoria desafinada na festinha do dia das mães que desestrutura qualquer ser que possua sangue correndo nas veias.
E é só tudo isso que faz valer a pena.

A você, que foi o último a saber.

•22/07/2009 • Deixe um comentário

 

adeus carta

POR GLAUCE LEANDRES.

Parece uma sina. Tenho a impressão de que vivo para tentar esquecer. Minhas noites – exceto as insones – acabam por me trair. Eu sonho, vivo e revivo situações. Você não tem me deixado dormir há alguns dias e me pergunto se fiquei te devendo algo. Não vivemos nada assim tão grandioso. Lembro-me de que, nos dias que antecederam minha partida, arrumei a mala escondida, guardei minhas vitórias só para mim porque achei que você não se interessaria por elas, da mesma forma que seu repentino interesse por mim se esvaiu em meio à descoberta de que talvez fosse a hora de tentar relações mais maduras e cheias de realidade. Você não estava mesmo preparado. Tanto é que anulou a minha presença e impôs a barreira do silêncio para nós. É como sempre digo: respeito espaços. Até demais. A alegria e os sorrisos chocavam-se na tal barreira e reverberavam um constrangimento que não deveria existir. Era inacreditável. E bastante triste. Lembro do teu semblante quando anunciaram a minha ida. Da decepção por não ter sido comunicado com antecedência, e consigo imaginar o amargo na boca e o frio bem no centro do peito. Entende o desconforto? Seria mesmo necessário ter sido o último a saber se não existisse a tal muralha? Dói ser flagrado no erro. “Caramba, perdi uma amiga, fiz tudo errado…”, você pensou alto. O que eu poderia te dizer? Só fiz o que suas ações me pediam. Perdoe-me se não compreendi o silêncio, mas ele permite uma série de interpretações. Compreenda algo importante: foram poucas noites, mas o amei em todas elas. De maneiras diversas. E deixei de amá-lo a cada vez que pegava o ônibus para voltar à minha casa. Sempre entendi o caráter esporádico dessa paixão – que não permitia ligações, mensagens de qualquer espécie e muito menos menções verbais no dia a dia. Não se sinta culpado, como os que enganam mocinhas inocentes. Já não sou mais mocinha, e a inocência é algo que perdi há bastante tempo. Nesse sentido, consegui ser tão breve e superficial quanto você. Não significa dizer que essa era a minha intenção quando baixei a guarda e deixei você fazer parte do meu imaginário. Outra coisa: não se ache tão importante a ponto de precisar alterar o seu comportamento na minha presença para “não me ferir”. Apenas mantenha o respeito, como você disse outrora ser o sentimento que eu te inspirava. Eu entendi o jogo e, nessa partida, sempre disputamos de igual para igual. Um beijo enorme, amadureça, e me deixa dormir porque não sou herdeira de nada e tenho muito, mas muito o que fazer.

corpo fechado

•12/06/2009 • 1 Comentário

biblioteca

 

Estudei em colégio de freiras até minha quarta série e, ao contrário de quase todas as outras pessoas que frequentaram instituições religiosas, adorava as freirinhas.

                Cheguei lá no meio do ano, transferida de uma escolinha da Baixada Fluminense, e não tinha nenhum amigo disposto a me dar boas-vindas, daí passava o recreio inteiro de braços dados com a Irmã Francisca, conversando amenidades que uma criança de seis anos pode conversar.

                Foi ela a responsável pela aproximação das crianças. Deviam pensar: “ah, já que a Irmã Francisca gosta dessa pentelhinha nova, ela pode ser legal”. Daí fiz amigos, mas isso depois de muitos recreios de braços dados.

                Adorava todo mundo, da diretora às professoras. Quer dizer… Esqueci da Irmã Rita.

                Um dos motivos daquele colégio ser tão importante para mim, até hoje, foi o incentivo que dava à leitura, mas, ironicamente, tinha a bibliotecária mais temida de toda a história dos colégios do Rio de Janeiro.

                Para se ter uma ideia, o lugar mais arrumado, limpo, brilhante do colégio era a biblioteca, simplesmente porque nós morríamos de medo de quem tomava conta dela. Uma vez, a desavisada novata entrou na sala proibida dos livros e, maravilhada com tanta estante abarrotada de lombadas convidativas, puxou um título, comentando com os colegas, já trêmulos de medo pela minha audácia, que o livro era muito legal. O grito foi instantâneo. E uma mulher vestida de pinguim saindo de trás das estantes também.

                Fiquei horrorizada, coloquei o livro no lugar onde eu achava que tinha tirado, o que acabou provocando mais impropérios saídos da boca de uma senhora tão inofensiva. Pena que apenas aparentemente. Saí correndo, pálida da biblioteca, com meus colegas atrás com cara de “viu, eu avisei?!”, mesmo sem terem avisado nada.

                Nunca mais entrei naquela sala. Mas, não sei por que, a maldição de Rita não pegou em mim, pois continuei completamente apaixonada por livros. Hoje, ela nem deve estar mais entre nós, porém consigo imaginá-la puta da vida por eu ter feito Letras apenas porque nunca deixei de amar Literatura.