suburbano coração

•15/01/2012 • 2 Comentários

355 – tiradentes x madureira de ponta a ponta, em dia de feira da lavradio. depois da volta que dá pela rua gomes freire e praça da república, cai na feiura explícita dos confins da central do brasil. a pobreza ali, escancarada, te dando medo e pena e curiosidade.

quando chega à avenida brasil, já se sente meio em casa. aquela bagunça com cheiro de churrasquinho nos pontos de ônibus da maior avenida do país é tão familiar… afinal, até os cinco anos passou brincando no quintal de uma casa da baixada fluminense e depois mais alguns dez anos no subúrbio irajaense, terra de zeca pagodinho e dos boêmios de irajá. ali, do ladinho de madureira, do mercadão, da portela e do império serrano, escolas de samba que ela nunca frequentou.

foi direto para a dentista, que continua em madureira, no meio do comércio mais popular do mundo (certeza de quem frequenta). o cheiro de comida nada dietética é impregnado em cada passo que você dá.

e a casa da mãe, sempre cheia, com o mesmo cheiro de comida deliciosa… à noite, chopp com a irmã, o afilhado e o cunhado. o bar com música ao vivo. o cantor gordinho enxugava com uma toalhinha o suor que o ar-condicionado não dava vazão de secar. ele pedia “cantem comigo”, mas a galera só o obedecia quando a música era do fabio jr. um rapaz vendia, entre as mesas, estojos de maquiagem como quem vende rosas de madrugada no leblon.

no dia seguinte, a mesa e a casa cheias. a família não sabe ser comedida, e faz comida para quatro batalhões. na verdade, só havia uma grande tropa presente. e muita cerveja. e muita comida. e muita sobremesa. e todo o amor do mundo.

ele cresceu

•23/12/2011 • 7 Comentários

minha mãe tomava conta dele quando ele era um bebê. e ele era nosso brinquedo. a gente morria de rir nas inúmeras vezes em que ele, tentando andar, batia de cara na parede. e ríamos mais ainda quando ele tentava explicar isso naquela língua fofa e inteligível de bebês. até que a gente descobriu que ele tinha mais de seis graus de miopia em um olho. daí ficamos com dó.

chegou o tempo em que nós ficamos adolescentes insuportáveis e tivemos de morar com ele. ele odiava a gente, mas sempre amou minha mãe incondicionalmente. até chegava a sugerir a ela se separar do meu pai e mandar a gente embora porque ele só queria ficar com a tia dele, não com nós, pentelhos agregados.

era (e é) um filho maravilhoso. obediente. inteligente. caseiro (espero que isso mude; tem muita coisa legal lá fora também). cada um em casa deu um apelido diferente para ele, e ele ainda reclama quando eu o chamo do jeito que minha irmã o apelidou ou qualquer outro que não seja o que eu escolhi. um milagre o pobre não ter tido crise de identidade.

rimos até hoje do jeito que ele dizia “obLigado” e “que saco ter uma prima professora de português” e de quando brincava de super-herói e proferia “em nome do pai, do filho e do espírito santo” como se fosse um grito de guerra.

ontem ele se formou no ensino médio. fiquei cheia de orgulho, mas puta que pariu, eu tô velha.

ny loves me

•10/11/2011 • 6 Comentários

quando eu tinha 10 anos, fui conhecer a terra de papai, o ceará. era aniversário de 15 anos de uma prima, no interior, e a família quase toda estava lá. foi uma viagem indescritível. eu tinha só uma década de vida, mas andava sozinha pelas ruas, todos os dias um tio (de muitos) dava dinheiro para os sobrinhos gastarem no parquinho que ficava na pracinha da igreja, e eu me achava a dona do meu próprio nariz.

quando voltei para a realidade do colégio e apartamento no pé de santa teresa, tive febre emocional. é… eu sou assim.

vinte e dois anos depois, fui matar um dos meus desejos: conhecer new york. fui com uma grande amiga, conheci pessoas incríveis (passamos em dc e nos apaixonamos pela família mais linda da capital dos donos do mundo também), e meus olhos não paravam de brilhar, e eu não conseguia não sorrir, e eu nem queria dormir (aí ficava difícil acordar, é verdade…). eu sabia que eu ia gostar – sim, tive medo de me decepcionar –, mas eu amei. amei demais. quero morar em nyc.

aí, volto para terra brasilis e, no primeiro dia de labuta (por quê?, por quê?, por quê?), pego alguma zica e fico com febre. é… eu sei.

amor demais

•05/08/2011 • 9 Comentários

eu não me lembro da primeira vez que tive dor de cabeça, porque a gente não tem memória tão longínqua, mas me recordo de uma situação que me faz ter peninha de mim. tinha uma amiga de mami em casa, e ela, conversando, falou que nunca teve dor de cabeça na vida. eu, uma fedelha, olhava para cima (sim, eu já fui pequena), com um olhar de incredulidade, já antecipando a maturidade: a vida realmente não era justa. desde pequena eu já sabia das coisas.

também não me lembro de quando comecei a ler, mas era muito nova, tenho certeza, pois a família se orgulha disso até hoje. e para quê, né?! acabei fazendo “letras e bebo para esquecer”. eu não me arrependo do curso, mas podia ter feito engenharia e estar rica hoje… aí, sim, faria letras a título de deleite pessoal. enfim, a questão é que amo ler. amo, amo, amo. e hoje me sinto uma prostituta literária: só leio por dinheiro

comecei com a turma da mônica. nas férias, quando não viajava para saquarema, lia uma revistinha inteira, voltava ao jornaleiro e comprava outra. era um looping eterno. até eu ficar amiga do moço da banca e ele deixar eu trocá-las. só que tinha uma hora em que elas acabavam, e eu morria de depressão até a semana seguinte.

minha vida mudou quando eu li a droga da obediência. mudou. pirei. li tudo do pedro bandeira e queria ser a magrí. até fundei um clube de investigação no colégio, mas nossas suspeitas de haver uma freira enterrada no palco da escola nunca foram confirmadas.

tive a fase de júlia, sabrina e bianca. devorava essas porcarias incessantemente durante as férias chatas em cabo frio. o bom é que era barato e durava um pouco mais que as revistas em quadrinhos.

comecei a flertar com sidney sheldon e tivemos uma paixão arrebatadora. coisa de criança, óbvio. adorava o sexo, amor, poder e dinheiro. mas me lembro de uma professora no pedro II dizendo que sheldon não era literatura. falou para outra aluna que confessou publicamente seu amor por ele, mas eu fiquei com vontade de matá-la por subestimar nosso amante dessa forma.

eu também lia paulo coelho em sua fase mística… é, eu sei.

como já mencionei, tive a felicidade de estudar em um colégio incrível, e a literatura lá era muito valorizada. foi quando eu conheci um dos grandes amores de minha vida: rubem fonseca. e eu tenho isso de enlouquecer e monotematizar quando me apaixono. li tudo do cara, quer dizer, do senhor. até hoje a gente ainda se dá muito bem…

amo machado, amo. gosto bastante de clarisse, adoro graciliano, lygia. mas saquei que a minha são os contemporâneos.

outro amor arrebatador foi sérgio sant’anna. para esse eu me declarei. tudo culpa do vinho branco barato de um lançamento. com as “vozes veladas, veludosas vozes” das amigas nos ouvidos, fui até ele e disse o quanto o amava. tive medo da decepção, mas ele, um gentleman, me tratou tão bem que o amor só fez aumentar.

agora os romances são tantos e tão lindos: cuenca, galera (hmmm), arruda leite (porque o amor literário é livre), mutarelli, prata, terrón… eu tenho muito amor para dar, sabe?!

não é bueiro, mas também explode

•21/07/2011 • 7 Comentários

ela vem todos os meses, mas nunca igual. e eu nunca me acostumo quando ela chega feroz, destruindo o que vê pela frente.

essa linda, a TPM, fode com a minha vida. a sensibilidade escrota que vem junto inviabiliza qualquer ser humano de viver com outros seres de forma minimamente decente.

absolutamente tudo vira motivo de choro – o que vale ou não o choro. devem ser as lágrimas acumuladas que a gente não deixa sair ao longo do mês. mas eu não choro, porque vai estragar a maquiagem.

              e é quando eu entendo perfeitamente o porquê de o porte de armas não ser legalizado.

aí, dá raiva de não ganhar bem e ter de fazer milhões de frilas e não ter vida social e não poder pagar um plano de saúde decente para os pais. e dá vontade de matar todo mundo por isso e por todos os outros motivos existentes no universo.

aí, decido me recompensar e almoço no mcdonald’s (é, isso mermo. se não gostou, me pega) e ainda compro dois vestidos na hora do almoço. melhoro consideravelmente.

até eu quase ser atropelada por um débil mental de BICICLETA. a vontade de cometer assassinatos em série com requintes de crueldade volta com força total. Mas preciso manter a cara e a voz aparentando que está tudo bem…

viver em sociedade é uma bosta!

preguiça e ansiedade

•23/06/2011 • 4 Comentários

eu sempre fui muito preguiçosa; a família sempre reclamou. e acho que a idade está piorando as coisas.

uma preguiça de trocar de bolsa, de arrumar meu guarda-roupa, de pegar o ônibus que passa mais vezes, mas deixa mais longe, de trocar de brinco todos os dias, de usar cordão, de ir ao cinema, de ler (!!!)…

e, ao mesmo tempo, a ansiedade me corrói. não tenho paciência para esperar o relógio da esteira chegar aos 40 e, às vezes, roubo, e saio aos 38 minutos. não tenho paciência para pessoas que não têm senso de comunidade e espaço público. uma vontade de matar quem ouve música alta no celular às alturas e continua respirando e com os batimentos cardíacos normais. uma vontade de chutar quem para no meio da calçada estreita das ruas do flamengo para conversar bloqueando o caminho. uma vontade de explodir os miolos de quem não responde a um bom dia, boa tarde, boa noite, que não agradece e que trata mal as pessoas que considera “inferiores”. uma vontade de trucidar aqueles comerciantes ou prestadores de serviço que tratam os clientes com total desrespeito. uma vontade de surtar com os vizinhos que só falam gritando e que nos obrigam a saber tudo sobre a vida deles. com detalhes sórdidos. uma vontade de gritar ‘se enxerga, minha filha’ para a loja da galeria condor que vende uma bermudinha na superliquidação por R$250,00.

preguiça da humanidade.

 

 

enough is enough

•14/03/2011 • 3 Comentários

 

Acabei de terminar a monografia da minha terceira pós-graduação. Contando com a da faculdade, já escrevi quatro desses enervantes trabalhos de final de curso. E não, não digo isso para me gabar, mas para tentar entender a razão de tanto sofrimento. Foi um parto normal atravessado, como disse durante todo o processo. O pior trabalho que já escrevi na vida. E tive ajuda de tanta gente boa (diretamente): Viviani, Verônica, Claudinha, Carolina, Ione, André e Elisângela… Todos incríveis; eu sou tão sortuda de tê-los ao lado. E os que eu amei conhecer e que, de alguma forma, contribuíram para essa pós ser concluída: Monica, Aderbal, Karine, Larissa, Isadora, Juliana, Liana, Roberta, Flavia, Augusto, Lilian, Mariana, Leonardo, Ricardo, Vania e Anna.

Acho que saquei o porquê de tanta dificuldade; foi a primeira pós que fiz amigos de verdade, e agi como faço com os livros que amo: fico adiando o final para tentar prolongar a alegria.

Obrigada a todos!

Um novo ano começa.

•02/01/2011 • Deixe um comentário

 

Não sou daquelas que confiam em mudanças por causa da alteraçao de uma data. Sou muito pessimista (ou realista, como prefiro dizer) para acreditar nisso, mas não posso reclamar de 2010. Foi um ano muito bom para mim, de muitas conquistas. Na verdade, é só o começo do que quero neste novo ano.

Tenho tantos amigos para amar, uma família tão maravilhosa e cheia de defeitos como toda e qualquer família. E tivemos saúde nesse ano que passou (não eu exatamente), o que é deveras importante se você não tem muito dinheiro.

Tornei-me emotiva com a idade, e descubro mais coisas que marejam meus olhos. E rio enquanto tento segurar as lágrimas, porque lembro que era tão seca… E tenho um pouco de saudade daquela época. Ah, e eu já era saudosista aos meus vinte e poucos anos. (só para vocês terem uma ideia de como tudo pode piorar)

Para este ano, desejo muita saúde, força, dinheiro e viagens. Muitas viagens. Quero isso para mim e para os meus. Feliz ano todo!

W.C.

•04/11/2010 • 1 Comentário

Não sou muito fresca, em geral, mas se tem uma coisa que está cada vez mais subindo na minha lista de importância é banheiro. Se bem que, desde criança, quando saíamos para jantar fora com papai e mamãe, minha irmã ia comigo inspecionar o banheiro do estabelecimento. Adorávamos os restaurantes com banheiros bonitos. Até porque, nessa época, não gostava tanto de comer assim – sim, isso já aconteceu um dia –, e cotávamos os lugares por outras características menos óbvias.

Acho também que tem coisas que a gente não admite mais, tipo dormir em cama de solteiro acompanhada. Chega uma idade que simplesmente não dá. E não estou falando isso só porque engordei horrores, apenas não tenho mais saco.

E banheiro feminino rende boas histórias. Rola uma amizade verdadeira ali dentro, durante o período de uso. Ajudas com roupas complicadas são comuns, e conselhos sobre o acompanhante também. Sim, gostamos de ir acompanhadas, e ninguém nunca explicará claramente a razão.

Eu continuo adorando um boteco, mas tem de ter um banheiro minimamente frequentável. Eu acho que a inveja do falo que Freud dizia era essa: homem se alivia em qualquer lugar (mesmo). Fala a verdade, tem coisa mais primitiva que mulher não sentar para fazer xixi?

Doce infância

•20/08/2010 • 10 Comentários

Quando Viviani era criança e sua mãe a colocava de castigo, o que acontecia constantemente, ela fugia pela janela e ia reclamar com a avó paterna. A vovó sempre dava um jeito de livrar a netinha da fúria materna.

 Quando Glauce era criança, seus primos a maquiavam e vestiam como miniadulta e a levavam a uma boate de black music no subúrbio carioca. A mãe dela ficava louca.

 Quando Claudia era criança, convidava todos os seus amigos da rua para aproveitar o verão na piscina Tony que havia ganhado dos pais, contrariando as ordens de sua mãe. Até que, um dia, um anônimo coleguinha deixou boiando uma obra-prima na água, obrigando todos a irem para as suas casas mais cedo.

 Quando Daniela e Mariana eram crianças, recebiam, de quando em quando, a visita de uma tia que adorava roer ossinhos de frango assado. Quando elas sabiam que Tia Licinha ia vê-las, tentavam guardar as sobras do frango desde a semana anterior.

 Quando Carolina era criança, tinha um primo que a tirava do sério. Até que, certa feita, em plenas férias familiares, deu uma surra no pobre garoto usando a mangueira com que tomavam banho no quintal. Na frente de todos, que olhavam boquiabertos, sentindo-se aliviados pela coragem que só ela teve.

 Quando Michele e Samantha eram pequenas, pintaram de preto o para-choque do táxi de um tio que fora visitá-las. Achavam que ele ficaria felicíssimo com a surpresa que preparavam. A mãe teve de ficar horas esfregando solvente no carro. E nas filhas.

 Quando Daniel era criança, no meio de um culto evangélico para os pequenos, pediu a palavra e só proferiu uma, em alto e bom som: – Peido! A mãe quis sumir na hora.

 Quando Monica era criança, fazendo a lição de casa, não conseguiu escrever a palavra palhaço. A mãe, achando que era má vontade, deixou ela sentada à mesa até conseguir tal proeza. Saiu nos braços do pai, depois de ter dormido sobre os cadernos.

 Quando Daniela era criança, a avó a obrigava a tomar achocolatado em copo de plástico para não haver o perigo de ela deixar cair. Ela odiava o cheiro que impregnava no copo e chorava copiosamente para não precisar passar por isso. Até hoje ela fica arrepiada ao ver copos que não sejam de vidro.

 Quando Francisco era criança, vivia esbarrando em tudo e qualquer coisa. As primas mais velhas morriam de rir, até descobrirem que o pequeno tinha seis graus de miopia.

 Quando Talita era criança, morria de medo de brincar de chicotinho queimado. Sofria de uma angústia sem medida por ter de adivinhar se colocariam o chinelo atrás dela. Mas era melhor enfrentar isso do que as amigas enchendo seu saco para aumentar a roda.

A infância realmente é a época da ingenuidade, alegria e despreocupação.

 
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