Paciência de Sanat Kumara

 

enfermagem tri

POR DANIELA MURAT

 

Eu fritando almôndega numa boca do fogão.  Ela refogando cebola na boca ao lado.
– A senhora tá mais gordinha, não tá?  (Pela segunda vez esta semana).
– Estou inchada por causa da medicação. (Pela segunda vez esta semana).
– Ah…
– O seu está queimando –,  digo de forma blasé enquanto ela, segurando o cabo da panela com uma mão e a colher de pau com a outra, contempla meu corpo edemaciado pelos hormônios.
– Ai, meu Deus!  Hi hi hi. – uma risadinha sem gracíssima –  Tô distraída…
– Tsc, Tsc, Tsc. – viro o rosto de forma negativa, denunciando minha desistência.
Não, meus caros, ela não possui cérebro. Foi formado, por engano, um paralelepípedo em seu lugar. Tenho que ter paciência, ela não tem culpa da embrionária anomalia.
Paciência, aliás, é a palavra de ordem desse meu momento. Uma empregada completamente insana, uma quantidade de hormônios inaláveis, injetáveis e ingeríveis de dar medo, um marido neurótico que não quer me deixar nem tomar um solzinho energizante para não fazer mal e uma expectativa para que tudo dê certo que arrepia minha alma. No centro de tudo isso, me encontro comigo.  Mas não devo ficar nervosa, esse tipo de sentimento não faz bem aos bebês.
O universo me enviou um curso intensivo de paciência, com direito a pós-graduação em abstração, mestrado em tolerância e doutorado em resiliência. Mas não é para menos.  Afinal, estou gerando  meu futuro elevado ao cubo. Já pararam pra imaginar o que pode significar isso?  Um caos de fraldas e chupetas e gritinhos urgentes de “manhê” , entre amedrontadores choros  de fome triplos, e só dois peitos.  Para onde foi a paciência, mesmo?
Mas há também as risadinhas hipnotizantes, aqueles “bocejinhos” angelicais e a cantoria desafinada na festinha do dia das mães que desestrutura qualquer ser que possua sangue correndo nas veias.
E é só tudo isso que faz valer a pena.

~ por michele paiva em 25/07/2009.

3 Respostas to “Paciência de Sanat Kumara”

  1. Mi… amei o texto. Consegue ser crítico sem perder o senso de humor. Adorei a forma delicada de tratar de um assunto tão complexo que é a chegada de um novo ser… No caso específico, não só de um, mas de três! Como diz vc e a Glau, “fofo” demais… rs. Bjks da amiga Jô.

    • Ops!!! A concordância escapuliu no depoimento acima… ehehehe. O diabo mora mesmo na tipografia. “Como dizem vc e a Glau” é o que eu deveria ter escrito, mas nao o fiz… foi mal, hein? Parafraseando Nelson Rodrigues, no ciberespaço, todo pecado será perdoado… Thank you, Jesus! rsrsrsrs… Bjs irônicos…

  2. Ah, Daninha, sempre me fazendo rir com seus textos. E sempre muito bem escritos. Amei, loira!

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