Verônica Bareicha e sua garcinha.

garca

 

POR VERÔNICA BAREICHA

Dia cinzento. Eu cansadíssima. Nem sabia se minhas pernas ainda aguentariam o próximo passo. Andava porque tinha que. A bem da verdade queria ser içada, mas, não havia quem pudesse fazê-lo. Meu peito apertado. Tanta coisa por fazer, ainda tanta coisa a precisar… E sinceramente, me perguntava se a vida era mais do que aquilo… Mais do que isso… Mais do que casinhas cinzentas no subúrbio, mais do que caras amassadas às 6 da manhã no “busão”, mais do que churrasquinho de gato como diversão.

Sendo bem sincera, o espírito nem estava tão sombrio assim, mas eu andara pelo shopping e as lojas lindas, cheirosas, apinhadas, gritavam contra minha carteira vazia, meu cartão de crédito proibido, meu saldo bancário vermelho. Realmente eu estava cansada.

Foi quando a vi… No fundo do canal de água suja, repleto de detritos, misturando água de tudo quanto é tipo com o que um dia deve ter sido um rio limpo e cristalino; uma garça. Branquinha. Linda! O que ela fazia ali? Não sei. De onde ela vinha? Não tenho a mínima ideia. Perto não existem zoológicos nem casas com grandes jardins, e ela ali com seu porte lindo, seu bico comprido coçando as penas. Sorri. Sentei na beirada do canal. Fazia-se necessário sentar. Descansar, sorver.

Tive vontade de levá-la para casa. Conversei com ela, perguntei tudo o que eu queria saber sobre… Embora ela não pudesse me responder. A água suja passava por ela, enquanto mantinha as patinhas sobre um monte de terra meio seco. Levantava ora uma ora a outra, como pra se esquivar de tanta podridão. Olhava em volta procurando uma saída, bicava a água, sacudia a cabeça e tornava a procurar. Não sei os hábitos das garças se curtem lixo, se isso ou aquilo, nada. Sei que sempre as acho lindas, imponentes e graciosas, elegantes, como se andassem sabendo quem são, donas de seu próprio caminho.

Infelizmente não pude ficar muito tempo. Muita coisa para fazer e o corpo ainda precisava descansar. Dei adeus e fui embora. Andei muito tempo olhando para trás, vendo aquela imagem branca no meio da sujeira, da água cinza, do dia cinzento. Coisa de maluco; a garça alegrou meu coração. Olhar para ela me fez pensar em coisas belas, me fez lembrar Deus que criou tudo o que é bom, me fez sentir como se Ele me abraçasse naquele momento e me fizesse dar aquela paradinha básica para respirar e saber que existe algo além do ruim.

Pensei então que existe sim algo além de casinhas necessitando pintura, de trabalhadores necessitando de sono e milagres, da falta de coisas interessantes para se fazer, da falta de dinheiro, da corrupção, da roubalheira e do mau-caratismo. Existem coisas brancas no meio da podridão… Belas, lindas… Basta ter fé para vê-las. Basta acreditar quando elas aparecem.

Hoje, tornei a passar por lá, mas a “minha garcinha” havia ido embora. Que pena! Se eu tivesse uma câmera teria fotografado, registrando assim aquele momento de paz, em meio a tanta correria.

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dando continuidade aos cineastas, Yeso Costa

SOBRE RATOS E BARATAS

mickey evil

POR YESO COSTA

Ler o post anterior, muito bom por sinal, me fez pensar nesses medos tolos que temos. O da Dani é de lagartixas, coisa que eu sinceramente não entendo – e aqui utilizo uma frase que criei num momento de “iluminação”: se nem eu me entendo, não vou perder meu tempo tentando entender os outros. E quem sou eu também pra falar de medos alheios se também tenho um? Assumo, confesso e não tenho vergonha alguma em afirmar: tenho pavor de ratos. O engraçado é que acho, quase que numa certeza absoluta, que esses medos são todos adquiridos, heranças culturais ou de família. Ninguém nasce com medo disso ou daquilo, passa a ter porque alguém tem. Falo isso porque um dos meus sonhos não consumados de infância era ter um hamster, mas hoje não quero ficar nem a 15 metros de distância de um exemplar destes. A culpada é minha mãe, com toda certeza. Ela SEMPRE (pelo menos desde que eu a conheço) teve medo de ratos. O que aconteceu? Acabei ficando também.

Existe alguma palavra que defina a fobia por ratos? Consultei a Wikipedia e constatei que sim. Sofro de musofobia ou murofobia. E vou dizer uma coisa: a minha é uma musofobiazona, viu? Sabe aquele medo que as mulheres têm de baratas? Então… Multiplique por mil e vocês terão um décimo do pânico que sinto por ratos. Juro que preferiria ficar num ambiente com umas 10.000 baratas me rodeando do que com um rato. Barata dá só nojinho. A visão do rato me causa pavor.

O pior é que eles me perseguem. São inúmeros os episódios desagradáveis que tive com ratos. Já pisei em um, sem tê-lo visto antes, obviamente, numa calçada de Icaraí que “gritou” e saiu correndo quando levantei o pé. Já fui ameaçado por dois que olharam pra mim e emitiram sons horrendos quando tentei entrar num banheiro em que eles tomavam água no ralo destampado. Já trabalhei numa locadora que tinha ratazanas que se escondiam nos dutos de ar condicionado e, de vez em quando, davam o ar de sua graça nas reuniões que eu tinha com meu ex-patrão no escritório, passando por entre nossas pernas debaixo da mesa. Já… Ih, se eu continuar contando todos os meus episódios com roedores vou ocupar umas três páginas de blog.

O negócio é que, se eu vejo um rato, em milésimos de segundos estarei a alguns metros de distância, mais rápido do que o Superman e o Flash. Caso isso não aconteça, ou vou estar paralisado ou desmaiado – vai depender da distância que o bicho vai estar de mim. Isso se eu não vomitar antes ao ver a criaturinha nojenta. O engraçado é que o cinema consegue criar personagens tão simpáticos e cativantes a partir deles, né? Vide À Espera de Um Milagre, um dos meus filmes favoritos e dos que mais me fazem chorar, que tem o Mr. Jingles, ou O Pequeno Stuart Little, com um ratinho fake mas gracinha. Um dos maiores ícones da cultura pop do século XX é um rato! Acho que a popularidade de Mickey Mouse chega perto à de Jesus Cristo. Ratos por todos os lados… ECA!

Por causa disso tudo eu consigo entender um pouquinho, mas nem tanto, a mulherada que tem medo de barata. Digo nem tanto porque barata pode ser morta, rato não! Desenvolvemos uma técnica super limpinha e nada nojenta em minha casa para matar as malditas: jogamos álcool em cima delas. Mais eficiente e mais rápida do que os inseticidas, a bichinha fica tontinha em questão de segundos, se estrebucha toda e pronto! Basta pegar um pá e jogá-la na lixeira mais próxima. E melhor: livre do “crack” e dos caldinhos! Agora, dá pra fazer isso com rato? Não! Há quem tente matá-los da forma tradicional, dando sapatadas, chineladas ou vassouradas. Nojo total! Sangue e miolos, o bicho amassado no chão, eu nunca tiraria a carcaça (acho que nem chegaria perto e, muito provavelmente, nunca mais pisaria na área em que ele foi morto, mesmo depois de lavada e desinfetada). O melhor mesmo seria que esses animais não existissem. Não consigo encontrar explicação plausível para sua existência. Deus devia estar a fim de sacanear muita gente quando resolveu colocar essas criaturas na Terra… Se Ele ainda falasse com as pessoas como nos tempos antigos, quando as nuvens abriam uma clareira no céu e aquele vozeirão ecoava com toda potência, eu O questionaria muito: “pô, mermão, o bicho já é nojento e Você ainda vai fazê-lo procriar muito mais rápido do que os homens? Pra quê?”

Realmente há mais mistérios entre o céu e a Terra (e, no caso dos ratos, nos subterrâneos também) do que sonha nossa vã filosofia.

começando os trabalhos, daniela arruda.

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POR DANIELA ARRUDA   

E hoje eu descobri que ela vive 10 anos. Quis chorar ao saber tal informação tão injusta. Vou ter mesmo que dividir minha casa, minhas 4 paredes brancas e limpinhas com aquele ser de sangue frio por 10 anos? Se ao menos ela dividisse o condomínio, pagasse uma parte da conta de luz (a de gás nem precisa, pois aquela nojenta, se tomar banho, só o faz com água gelada!), mas não, ela fica lá usufruindo do meu lar, me tirando noites de sono e o fará por mais 9 anos, 10 meses e 14 dias. Sim, porque já tem 1 mês e 16 dias que ela apareceu. Lembro bem o dia em que cheguei no corredor e vi a coisinha saindo da lâmpada (será que suas mães dão a luz, como as nossas?). Era pequena, desajeitada e quase transparente. Primeiro prendi a respiração, depois avaliei o terreno. Era muito pequena, estava numa altura boa da parede, era só pegar o chinelo e plact. Pois deixei uma marca marrom na minha parede branca (por que não peguei um sapato mais limpinho?) e a infame saiu correndo e sumiu pra sempre na luz.  Fechei as portas, coloquei tapete nos orifícios, isolei o corredor da minha rotina. Fiquei sem freqüentar tal parte da casa.  Uma semana depois (com o tempo, concluí que ela só aparece às segundas-feiras!), estou na cozinha livre, leve e cozinheira, abro o armário e quem está lá? A própria, a ambiciosa! Ela não se deu por satisfeita de ter um cômodo só pra ela, quis conquistar um novo território e exatamente a área nobre e apetitosa da casa (burra ela não é)! Fechei a cozinha, corri pro quarto, bati a porta, isolei o rodapé. Tive descargas de adrenalina no sangue, taquicardia, tremedeiras, suor nas mãos. Só saí no dia seguinte, scanneando chão e paredes, pisando na ponta do pé e sem nem tomar café. Mentalizei que minha mãe chegava de visita na quinta-feira, já era terça, tava tudo certo, uma dietinha não ia me cair mal. A cozinha se manteve sem uso até mamãe fazer uma varredura e… não achar nada! Esqueci de avisar que ela só aparecia às segundas-feiras. Tudo se manteve tranquilo, me convenceram de que ela já devia estar morta, que elas vivem pouco. Eu acreditei. Vivi bem por duas semanas até ontem. Entro no banheiro, sem roupa nem chinelo, e fico cara a cara com a maldita. Saí correndo, mais desprotegida que nunca. Corri pro quarto, peguei meu saco, respirei 1, 2, 3. 1, 2, 3. Não adiantou. Tive vontade de chorar. Liguei pro namorado. Me ajuda? Eu preciso tomar banho. Não, ela não encostou em mim. Nãão, lógico que eu não encostei nela. Preciso tomar banho e ela invadiu o meu banheiro! Fechei a porta e não vou sair daqui nunca mais. Não, nem pra abrir a porta quando você chegar. Tá, pra você eu vou abrir a porta. Mas vem logo? Ele veio, tentou pegar a branquela contorcionista, que se enfiou num vão entre o armário e o rodapé. Lá vem ele com uma cara de desânimo. Vai ficar tudo bem, vamos dar um jeito, tem algum veneno, vamos ligar pro pai do Marcelo que tem uma empresa de dedetização. Ligamos. É contra a lei (que lei?) dedetizar lagartixas. Mas veneno de barata as deixa tontas, podemos testar. Como assim podemos testar? Não quero testar nada, imagina largatixas tontas caindo do teto? Fiz bico. Ele ficou tenso. Teve a brilhante idéia de vedar o buraco e assim ela não sair mais. Eu pensei: pode ser com durepox? Pode. Ele trancafiou-a numa solitária e eu espero muito que ela seja claustrofóbica e morra de descargas de adrenalina naquele sangue frio nojento. Ele me jurou que ela não duraria muitos dias, que ia morrer logo. Eu duvidei. Vim no Google conferir. E acabo de descobrir que ela vive em média 10 anos. Agora preciso urgente saber: qual a durabilidade do durepox? 
Por Daniela Arruda, que gosta de cores, de filmes e flores e odeia lagartixas.

She…

ELA (em 27/01/06)

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Ela é uma farsa.

Ela fala com tanta certeza sobre tantos assuntos, mas não sabe de nada de verdade.

Ela tem poucas amigas verdadeiras. Ela se sente muito só.

Ela talvez ainda ame um idiota. Ela só atrai idiotas.

Ela está acima do peso. Come muito e tem preguiça de fazer exercícios físicos.

Ela gosta de lua cheia. Ela se apaixona e desapaixona muito rápido.

Ela trata mal quem não merece e é muito meiga com quem não merece.

Ela não gosta de cebola e quase ninguém respeita isso.

Ela se sente MUITO idiota quase 100% do seu dia.

Ela é muito idiota sempre.

Ela fala demais. Ouve demais. Reclama demais. Ela é chata.

Ela tem MUITA TPM. Ela é TPM pura.

Ela adora músicas que nem todos conhecem. Ela adora cantar alto. Ela é desafinadíssima.

Ela já foi muito enganada e nunca aprende que não deve se entregar tanto a alguém.

Ela ama ler, mas não absorve quase nada que tem em seus milhões de livros.

Ela é burra, mas todos a acham inteligentíssima. Ela finge muito bem.

Ela é feia. Ela é boba. Ela é esquecida.

Ela não gosta de poesia.

Ela é poesia triste.

ELA É TRISTE. AMARGA. VINGATIVA. RANCOROSA.

Apenas deixem-na em paz.

ela não entende nada do que eu digo.

 

 

blog

 

Ele disse que tava com pressa. Se desculpou porque não iria nem tirar minha calcinha. Me comeu afastando minha lingerie para o lado e saiu quase correndo, como se tivesse ido lá só me fazer um favor. 

Quando contei esse nosso último encontro para a Ana, e disse que morri de tesão justamente pelos fatos que ela iria condenar, ela quase morreu entalada de indignação. E recomeçamos uma ladainha sem fim. Ela recomeçou, uma ladainha sem fim.

Mas a culpa é minha. Quem manda eu querer contar essas coisas para a Ana? Só por que ela é minha melhor amiga? Eu tenho de aprender que ela nunca vai me entender, até porque ela não entende sexo.

 

A Ana é daquelas que fazem amor e eu acho muito estranha essa gente, mas nos conhecemos desde o primeiro ano, e quase ninguém fazia sexo a dois naquela época. Mas devia ter percebido que ela era diferente de mim quando chorava se a professora não deixava ela ir ao banheiro na hora da aula ou se algum garoto implicava com ela no recreio.

 

Sempre admiti para a Ana que não me orgulhava de fazer isso com ele, de estar com um cara casado cuja esposa eu conhecia, mas, porra, eu tava pouco me fudendo para isso, eu não ia casar com ele – até porque ele era casado – e só queria sexo mesmo. E ele tinha dos bons, pronto. E mesmo assim ela só me condenava, condenava, condenava. Mas quando deixava de contar para ela sobre um de nossos encontros ela quase me implorava para saber de tudo, principalmente dos detalhes sórdidos.

 

Garanto que se ele fizesse com ela a metade das coisas que faz comigo… Ana seria uma guria muito mais legal.

 

 

 

 

introduce yourself

welcome

Então é isso, esse é meu novo blog. Não queria apresentações, razões etc., mas queria dar um “oi” só para fingir que sou educada para começar.

O primeiro post tinha de ser para a Tripolli, porque ela batizou a criança. A foto do cabeçalho é de Viviani Rocha, fotógrafa em ascensão, que irá aparecer muito por aqui ainda.

Quero muitos convidados. É minha primeira vez sozinha e não pretendo continuar nesse onanismo eternamente. Vou convidar quem acho que escreve bem mesmo não sendo meu amigo. Sei que levarei muitos nãos, mas vou aprender a superar.

Pronto. Chega de não-ficção.