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Nos conhecemos na Internet. Nunca tinha acontecido comigo e sempre achei bizarro quando ouvia alguma história de relacionamentos apenas virtuais, mas eu simplesmente não sei explicar o porquê de ter ficado apaixonada por ele em tão pouco tempo.

            A verdade é que nunca me apaixono e adoro viver assim, mas nessa época eu fazia de tudo para chegar em casa e me conectar só para conversarmos sem parar até precisar ir para a cama. Sem ele.

            Nunca fui enganada, nunca tive esperanças, mas isso não me impedia de fantasiar nossos encontros e conversas ao vivo. Parecia uma adolescente beirando os 40.

            No meu aniversário de 38 anos, tomei coragem e o convidei para uma festa que não existia. Ele disse que viria, e minha vida parou só para planejar nosso final de semana de amor. Eu tinha certeza de que tudo seria perfeito e seríamos felizes para sempre por dois dias.

            Na quinta-feira à noite, ele ligou dizendo que não poderia mais vir. Disse que entendia, mas fiquei arrasada. Foi meu pior aniversário. Pior até do que o de 6 anos, quando perdi meu cachorrinho. Achei que fosse entrar em depressão, porque sou como criança quando as coisas não saem do jeito que planejei. E eu tinha esquematizado até o jeito que eu sorriria ao recebê-lo no aeroporto.

            Brigamos na madrugada e passei o resto da semana mal. Fiz pirraça e não entrava na rede para não cair em tentação de fazer as pazes. Ele também não demonstrou que faria contato novamente, o que me deixou ainda pior. Era incrível, pois o relacionamento era como qualquer outro, apenas o suporte era novo para mim.

            Foi ruim perceber que minha vida tinha se resumido àquela tela de LCD no meio da minha sala, mas, ao mesmo tempo, não conseguia me desligar do que ela me proporcionava.

            Ele me ligou de novo. Dessa vez me pediu desculpas, mas eu disse que não tinha por que se desculpar. Meu coração batia descompassadamente. Continuei dizendo que a culpa era minha, eu tinha confundido e hiperdimensionado tudo – absolutamente civilizada. Ele ficou em silêncio e me respondeu com a voz embargada, para a minha surpresa, que a confusão era de ambos, já que ele não conseguia fazer outra coisa a não ser pensar em mim, que queria me ver urgentemente, que aquela densidade de relação causou medo nele e falou, falou, falou exatamente tudo o que eu sentia. Da mesma forma e intensidade.

            Desliguei com um sorriso nos lábios. A partir daquele momento me libertei daquela coisa doentia e nunca mais nos falamos.

A viagem azul de Shirley Rodrigues

maefilha

 POR SHIRLEY RODRIGUES

O meu futuro é cheio de saúde e harmonia. Uma espécie de paraíso onde eu e meus amores vivemos sob a luz de um sol que aquece sem queimar. À noite, o céu é sempre iluminado por uma nova lua; com ela eu viajo por lugares e futuros nunca vistos antes, mesmo sem sair do meu banco duas fileiras à frente do cobrador.

A minha semente cresce fortalecida. Se sua origem é boa e segura; seu crescimento não se dará de forma diferente. Jesus, o maior de todos os mestres, disse que pelos frutos conhecemos a árvore. Apesar de o mundo ser o lugar do improvável, eu acredito nisso.

Sentada aqui no canto, quietinha, olhando a paisagem enquanto andamos a 60 quilômetros por hora, é possível me desligar de tudo lá fora e sonhar com muitas coisas, como essas.

Agora, é descer na próxima parada e regar dia após dia a minha sementinha, que vai crescendo rápido. Ah, ontem à noite, antes de dormir, ela me disse: “Mãe, eu te amo muito.”

*Para Laís

foi ela…

mulhernometro

Entrei esbaforida no metrô. Quase perdi o trem. (Sabe quando o maquinista (?) dá uma paradinha no fechamento da porta quando vê uma mulher em apuros como eu? Então, foi assim.)

Estava suada porque corri pela rua por conta do atraso, minha blusa estava amarrotada por causa da pressa, e eu com bolsa, mochila e pasta. Óbvio que eu não iria me equilibrar com tanta coisa, mas fui tentando até entrar no vagão.

As pessoas abriram espaço para eu passar. Acho que estava causando medo. Quando “aterrisso” em frente a uns bancos laterais, vejo uma mulher irritantemente linda posando nos assentos dos idosos. E só porque ela era linda ninguém olhava com cara feia o fato de ela estar nos assentos preferenciais dos velhinhos chatos que andam de metrô. Ela estava meio de lado, com imensos óculos escuros e um tubinho que, em mim, ficaria extremamente brega, mas não naquele corpo teimosamente lindo.

Eu, ainda tentando me equilibrar, resolvi arriscar mais um pouco e decidi abrir a bolsa, pegar meu MP3, ligá-lo e colocar os fones nas orelhas, assim, como quem poderia fazer isso impunemente. Meu protetor solar facial derretia e meus óculos de grau embaçavam por causa disso; meus cabelos caíam na cara, mas não com um movimento sexy, mas de desespero. Foi exatamente nesse momento, quando minha pasta quase fugiu dos meus braços, que ela encostou sua macia mão no meu braço e sorriu. Pensei que ela só ia querer prestar ajuda a uma pobre diaba sem classe, mas ela continuou sorrindo sem me pedir os pertences.

Foi aí que me lembrei dela, a garota mais bonita da faculdade, a que namorou um amigão meu (um dos poucos homens de Letras), agora era a mulher mais bonita do metrô. Ela tirou os óculos e levantou para conversarmos. Que raiva! Ela era perfeita, com seu corpo perfeito, seu sorriso perfeito, sua trajetória de vida perfeita, sua vida no exterior perfeita…

E eu tentando recordar algo que tivesse efeito naquela conversa extremamente desagradável. Para mim.

Falei mais meia dúzia de idiotices e ela se foi, na Estação Carioca. E eu, puta, segui para Inhaúma, com o dia sem salvação.

A maldição do bolo

bolo solado

Para David (em 19/12/2008)

Ela era uma mulher singular – até porque é uma invenção de idiotas dizer que mulher é tudo igual, diria Almodóvar. Nós podemos ter alguma coisa afim, mas dizer que somos iguais beira à ignorância.

Célia não devia ter 40 anos ainda; loira, queimada de sol e com uma magreza anoréxica, não comia o dia inteiro, era extremamente irritada com tudo e todos e vivia imprimindo receitas dos mais variados sites gastronômicos, já que cozinhava muito bem e conquistou seu noivo pelo estômago. A gente achava que ela não agüentava e comia o que preparava, mas depois devia vomitar tudo para manter aquela esqualidez horrenda.

Seu noivado com César já durava doze anos e só não casaram ainda porque sua mãezinha estava à beira da morte e só restava isso acontecer para dar-se o enlace matrimonial. Um tanto mórbido e outro tanto prático.

Quando eles resolveram conversar a sério sobre a possibilidade do casamento ocorrer, algo terrível aconteceu. O jantar que ela preparou foi incrível, mas o bolo solou, o que fez ela, aos prantos, terminar o noivado, porque o sinal foi muito claro: nem com fermento aquilo iria crescer. Pena que ela só percebeu mais de uma década depois.