corpo fechado

biblioteca

 

Estudei em colégio de freiras até minha quarta série e, ao contrário de quase todas as outras pessoas que frequentaram instituições religiosas, adorava as freirinhas.

                Cheguei lá no meio do ano, transferida de uma escolinha da Baixada Fluminense, e não tinha nenhum amigo disposto a me dar boas-vindas, daí passava o recreio inteiro de braços dados com a Irmã Francisca, conversando amenidades que uma criança de seis anos pode conversar.

                Foi ela a responsável pela aproximação das crianças. Deviam pensar: “ah, já que a Irmã Francisca gosta dessa pentelhinha nova, ela pode ser legal”. Daí fiz amigos, mas isso depois de muitos recreios de braços dados.

                Adorava todo mundo, da diretora às professoras. Quer dizer… Esqueci da Irmã Rita.

                Um dos motivos daquele colégio ser tão importante para mim, até hoje, foi o incentivo que dava à leitura, mas, ironicamente, tinha a bibliotecária mais temida de toda a história dos colégios do Rio de Janeiro.

                Para se ter uma ideia, o lugar mais arrumado, limpo, brilhante do colégio era a biblioteca, simplesmente porque nós morríamos de medo de quem tomava conta dela. Uma vez, a desavisada novata entrou na sala proibida dos livros e, maravilhada com tanta estante abarrotada de lombadas convidativas, puxou um título, comentando com os colegas, já trêmulos de medo pela minha audácia, que o livro era muito legal. O grito foi instantâneo. E uma mulher vestida de pinguim saindo de trás das estantes também.

                Fiquei horrorizada, coloquei o livro no lugar onde eu achava que tinha tirado, o que acabou provocando mais impropérios saídos da boca de uma senhora tão inofensiva. Pena que apenas aparentemente. Saí correndo, pálida da biblioteca, com meus colegas atrás com cara de “viu, eu avisei?!”, mesmo sem terem avisado nada.

                Nunca mais entrei naquela sala. Mas, não sei por que, a maldição de Rita não pegou em mim, pois continuei completamente apaixonada por livros. Hoje, ela nem deve estar mais entre nós, porém consigo imaginá-la puta da vida por eu ter feito Letras apenas porque nunca deixei de amar Literatura.