Paciência de Sanat Kumara

 

enfermagem tri

POR DANIELA MURAT

 

Eu fritando almôndega numa boca do fogão.  Ela refogando cebola na boca ao lado.
– A senhora tá mais gordinha, não tá?  (Pela segunda vez esta semana).
– Estou inchada por causa da medicação. (Pela segunda vez esta semana).
– Ah…
– O seu está queimando –,  digo de forma blasé enquanto ela, segurando o cabo da panela com uma mão e a colher de pau com a outra, contempla meu corpo edemaciado pelos hormônios.
– Ai, meu Deus!  Hi hi hi. – uma risadinha sem gracíssima –  Tô distraída…
– Tsc, Tsc, Tsc. – viro o rosto de forma negativa, denunciando minha desistência.
Não, meus caros, ela não possui cérebro. Foi formado, por engano, um paralelepípedo em seu lugar. Tenho que ter paciência, ela não tem culpa da embrionária anomalia.
Paciência, aliás, é a palavra de ordem desse meu momento. Uma empregada completamente insana, uma quantidade de hormônios inaláveis, injetáveis e ingeríveis de dar medo, um marido neurótico que não quer me deixar nem tomar um solzinho energizante para não fazer mal e uma expectativa para que tudo dê certo que arrepia minha alma. No centro de tudo isso, me encontro comigo.  Mas não devo ficar nervosa, esse tipo de sentimento não faz bem aos bebês.
O universo me enviou um curso intensivo de paciência, com direito a pós-graduação em abstração, mestrado em tolerância e doutorado em resiliência. Mas não é para menos.  Afinal, estou gerando  meu futuro elevado ao cubo. Já pararam pra imaginar o que pode significar isso?  Um caos de fraldas e chupetas e gritinhos urgentes de “manhê” , entre amedrontadores choros  de fome triplos, e só dois peitos.  Para onde foi a paciência, mesmo?
Mas há também as risadinhas hipnotizantes, aqueles “bocejinhos” angelicais e a cantoria desafinada na festinha do dia das mães que desestrutura qualquer ser que possua sangue correndo nas veias.
E é só tudo isso que faz valer a pena.

A você, que foi o último a saber.

 

adeus carta

POR GLAUCE LEANDRES.

Parece uma sina. Tenho a impressão de que vivo para tentar esquecer. Minhas noites – exceto as insones – acabam por me trair. Eu sonho, vivo e revivo situações. Você não tem me deixado dormir há alguns dias e me pergunto se fiquei te devendo algo. Não vivemos nada assim tão grandioso. Lembro-me de que, nos dias que antecederam minha partida, arrumei a mala escondida, guardei minhas vitórias só para mim porque achei que você não se interessaria por elas, da mesma forma que seu repentino interesse por mim se esvaiu em meio à descoberta de que talvez fosse a hora de tentar relações mais maduras e cheias de realidade. Você não estava mesmo preparado. Tanto é que anulou a minha presença e impôs a barreira do silêncio para nós. É como sempre digo: respeito espaços. Até demais. A alegria e os sorrisos chocavam-se na tal barreira e reverberavam um constrangimento que não deveria existir. Era inacreditável. E bastante triste. Lembro do teu semblante quando anunciaram a minha ida. Da decepção por não ter sido comunicado com antecedência, e consigo imaginar o amargo na boca e o frio bem no centro do peito. Entende o desconforto? Seria mesmo necessário ter sido o último a saber se não existisse a tal muralha? Dói ser flagrado no erro. “Caramba, perdi uma amiga, fiz tudo errado…”, você pensou alto. O que eu poderia te dizer? Só fiz o que suas ações me pediam. Perdoe-me se não compreendi o silêncio, mas ele permite uma série de interpretações. Compreenda algo importante: foram poucas noites, mas o amei em todas elas. De maneiras diversas. E deixei de amá-lo a cada vez que pegava o ônibus para voltar à minha casa. Sempre entendi o caráter esporádico dessa paixão – que não permitia ligações, mensagens de qualquer espécie e muito menos menções verbais no dia a dia. Não se sinta culpado, como os que enganam mocinhas inocentes. Já não sou mais mocinha, e a inocência é algo que perdi há bastante tempo. Nesse sentido, consegui ser tão breve e superficial quanto você. Não significa dizer que essa era a minha intenção quando baixei a guarda e deixei você fazer parte do meu imaginário. Outra coisa: não se ache tão importante a ponto de precisar alterar o seu comportamento na minha presença para “não me ferir”. Apenas mantenha o respeito, como você disse outrora ser o sentimento que eu te inspirava. Eu entendi o jogo e, nessa partida, sempre disputamos de igual para igual. Um beijo enorme, amadureça, e me deixa dormir porque não sou herdeira de nada e tenho muito, mas muito o que fazer.