A dama e a bandeira

Timidez

 POR MONICA PINTO DA VEIGA 

Pedro era um rapaz muito envergonhado. Estava sempre com os olhos grudados no chão, caminhava devagar com as mãos nos bolsos, falava baixo e pouco. Só conversava se puxassem conversa com ele, nunca tomava a iniciativa. Não se olhava no espelho e evitava locais que pudessem refletir sua figura: achava-se esquisito. Gostava mesmo da internet com câmera desligada e dos jogos no computador.

 Certo dia, por curiosidade, resolveu passear pelas páginas de amigos no site de relacionamentos e encontrou um nome novo: Carol. Carol… Carol quem seria? No lugar da foto tinha uma carta comum de baralho, uma dama de copas. Tentando lembrar se a conhecia, apoiou o cotovelo na mesa e, olhando para o teto, esbarrou no teclado abrindo uma janela de conversa. Entrou em pânico, mas antes que pudesse desligar o computador, Carol respondeu com um “oi” todo florido. Pedro prendeu a respiração e por pouco não apertou o botão power. Respondeu um “olá”, e em seguida pediu desculpas. Carol quis saber por que ele pedira desculpas, Pedro não soube responder. Ele perguntou por que ela perguntara aquilo, Carol engasgou no teclado. Passaram horas fazendo perguntas para o outro, até que chegou a noite e chegou a hora do jantar e chegou a hora de dormir.

 Carol, no jeito de ser, era parecida com Pedro. Tinha vergonha dos seus cabelos ruivos que chamavam muita atenção e olhava para baixo quando caminhava. Não tinha o costume de conversar no computador, nem no telefone. Era uma moça muito quieta e quando escreveu o “oi” florido para o Pedro foi sem querer: queria ver como era aquele “oi” cheio de flores em volta. Mas Pedro respondeu em vez de desligar.

 No dia seguinte, quando Carol ligou o computador, Pedro já estava lá à espera dela. Conversaram, fizeram perguntas um para o outro e começaram a respondê-las. No terceiro dia, Carol chegou antes de Pedro e conversaram, contaram histórias das famílias, falaram de amigos, trocaram ideias sobre livros, revistas, músicas e filmes. Descobriram que gostavam dos mesmos livros, liam as mesmas revistas, baixavam as mesmas músicas e compravam os mesmos filmes.

Muito tempo se passou desde o primeiro encontro no computador. Pedro e Carol eram amigos, mas nunca tinham se visto. No computador, Carol era a dama de copas e Pedro era a bandeira do Flamengo. O vermelho e o preto predominavam, gostavam das mesmas cores.

 Um belo dia, descobriram que frequentavam a mesma sorveteria, pediam sempre o mesmo sabor, era possível que já tivessem passado um pelo outro sem saber. Marcaram um encontro: Pedro sugeriu o dia, Carol disse a hora. Pedro acreditou que a iniciativa de marcar o encontro havia sido dele, Carol pensou que fora dela. Pedro e Carol vestiriam camisetas vermelhas para que pudessem se reconhecer.

 No dia marcado, na hora combinada, Pedro e Carol chegaram praticamente ao mesmo tempo em uma sorveteria com muitas outras pessoas vestidas de vermelho. Tinha mãe com bebê no colo, 

tinha avô com bigodes grandes, tinha pais e filhos, tinha muita gente, todos vestidos de vermelho, saídos de uma festa no clube ao lado.

 Pedro, com as mãos nos bolsos, e Carol, com os olhos no chão, pareciam fazer parte da turma da festa no clube. Pedro com os olhos baixos e Carol com os braços cruzados foram se distanciando do balcão, foram andando para fora da sorveteria, foram caminhando para a beira da calçada até que esbarraram um no outro. “Desculpa!” exclamaram ao mesmo tempo em que se olharam. Pedro ficou encantado com aquela moça de cabelos vermelhos e olhos verdes, tão bonita que parecia ter saído de um dos contos de fadas que sua irmã mais nova costumava reler. Carol olhou para Pedro e sentiu faltar uma batida no coração quando ele sorriu ao pedir desculpas. Ele era mais alto que ela, tinha os cabelos castanhos claros e olhos cor de mel. Carol nem imaginava que aquele rapaz bonito era o Pedro com quem ela conversava. Um rapaz bonito daquele jeito nunca olharia para ela, a desengonçada de cabelos vermelhos. Não passou pela cabeça de Pedro que aquela moça linda era a Carol-dama de copas. Uma moça formosa assim não olharia para ele, sujeito tão esquisito.

 Nenhum dos dois disse nada, distanciaram-se um do outro, ainda olharam em volta. A sorveteria continuava cheia de pessoas vestindo vermelho. Nunca se encontrariam ali. Não era o dia, não era para acontecer.

 Pedro começou a caminhar com as mãos nos bolsos, de volta para casa, quando ouviu alguém gritar seu nome:

– “Pedro!” Quando ele se virou, estava Rodrigo, seu amigo de infância, ao lado da moça de cabelos vermelhos.

– “Que coincidência!” disse Rodrigo para ele. – “Encontrar você e Carol aqui na sorveteria hoje!”

 Carol e Pedro se olharam. A dama da copas e a bandeira do Flamengo deram lugar a uma bela moça de cabelos vermelhos e a um rapaz bonito com um sorriso contagiante. Pedro e Carol, envergonhados, mas satisfeitos, pediram um sundae de floresta negra, o sabor preferido dos dois, e conversaram de verdade pela primeira vez.

Criador e Criatura

devil

POR JULIO CESAR OLIVEIRA

 

Eu sei, isso pode até parecer uma heresia, ou um paradoxo. Entretanto, pensando do ponto de vista prático, acho que todo mundo está rezando errado. É isso! Temo ter encontrado a solução para um dos maiores problemas existenciais da humanidade: a luta entre o bem e o mal.

Era um dia de folga e, como tal, estava a relaxar em minha morada até que tive a ideia de passar num mercadinho, pois havia me lembrado de uma receita que não saboreava faz tempo e que muito me apetece. No caminho, passei por um pequeno templo, desses que brotam por aí, bastando uma cadeira de plástico, um quadro-mural, um microfone, uma potente caixa de som e ouvidos resistentes a todos os tipos de evocações e exaltações histérico-religiosas.

Na porta do recinto, sobre uma mesinha modesta de madeira antiga, um curioso livro me chamou a atenção. Na capa, estava escrito: Seu nome no livro de orações! Confesso que pensei numa traquinagem maldosa de adulto ao cogitar o nome de um vizinho chato ou chefe do trabalho, mas, antes de empunhar aquela caneta bic amarrada com barbante e com tampa mordida, caí num dilema: “E se eu colocasse o nome do capeta no livro? Será que rezariam pelo coisa-ruim?”. Sim, afinal dizem que a fé transforma e cura tudo e a todos. Pensem comigo, porque não param de culpar o diabo por todas as mazelas de nossa sociedade e passam a orar por essa criatura de Deus que só pensa em maldade?

Aquela ideia, que era para ser gozação, passou a fazer total sentido na minha cabeça. Imaginei de repente todas as igrejas, templos, seitas, terreiros ou seja lá o que for, orando pelo bem do Beu-Zebu, oras! Pensei na discriminação que o pobre anjo decaído vem sofrendo ao longo de milênios e as tentativas frustradas de ascender ao reino dos céus… No final de tantos sucessivos fracassos, o capeta só podia descambar para a maldade mesmo, como se “Dick Vigarista” fosse.

Todavia, como o poder dEle não se discute, lanço uma campanha: rezemos por Lúcifer! Chega de exorcimos, de história da maçã, quem nunca errou que atire a primeira pedra. Isso é injusto, pessoal! Quem sabe rezando não aplacamos a fúria de fazer o mal do dito cujo? Ou, então, podemos oferecer uma vaga de político em Brasília em meio a outros santos? Bem, se isso vai funcionar eu não sei. Mas, uma cadeira, lá no céu, ao lado de Deus, não seria tentador?

Era para ser ficcional.

placa-30-anos1

 

Fiz 30 anos mês passado.

Nunca pensei que fosse chegar esse momento, mas ele veio. Rapidamente, aliás.

Pensei em fazer outro piercing, mais uma tatuagem ou, até mesmo publicar um texto neste blog, mas não fiz absolutamente nada. Quer dizer, fiz uma festa. O que fez me sentir muito popular, porque faltou muita gente e, ainda assim, lotou.

Era para ter mudado muita coisa, mas não mudou.

Sim, saí da casa de mami, tô ganhando melhor (o que não significa que seja bem ainda), tenho mais amigos, minhas amigas antigas estão mais próximas, sei escrever direto no computador – é bem verdade que agora o faço no papel, no meio de uma palestra incrivelmente chata de minha 3ª pós-graduação – e aprendi a comprar roupa sozinha.

Sei o que não quero mais e achei, quando criança, que teria nesta idade: muitos filhos, casamento e casa com quintal. Não quero filhos nem casamento e prefiro apartamentos.

Aprendi a engolir sapos, ideologia e choro. Chamam isso de maturidade. E eu me acho uma adolescente.

E é difícil, sim, fazer essa idade que Honoré marcou tanto. Filho da puta! Ele falou bem, mas só serviu para nos marcar; nós, balzaquianas.

E vou seguindo, sem muitos planos, como sempre. Morrendo de medo de fazer 40.