Afetos de fato

kfzim

POR IONE NASCIMENTO

“natural é as pessoas se encontrarem e se perderem”.
(
caio fernando abreu)

certos gestos são tão peculiares que nos transportam a momentos igualmente singulares e é daí que sobrevivem as memórias afetivas ## a hora do café e o ritual que antecede o primeiro gole: a escolha do lugar, a mesa distanciada do vai e vem dos garçons; decidir entre descafeínado, capuccino, expresso, pingado, carioca, pequeno ou duplo ## aguardar a chegada das xícaras alinhavando palavras em conversas banais, (pré)sentir o aroma e então, o gesto: o envelope de adoçante levemente sacudido no ar, em seguida, rasgado apenas de um lado e, finalmente, despejado na bebida quente ## faz-se um silencio que apenas permite o som distante de um piano enquanto os primeiros goles vagarosamente são saboreados ## pequenos prazeres que certamente não se repetem com frequência e, por isso mesmo, se constituem prazeres (e pequenos porque valiosos) ## daí, sobrevivem as memórias e os afetos.
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Notícias desinteressantes

futebol

por biazica

 

Nunca consegui assistir a um jogo de futebol por inteiro, somente a pedaços esquartejados de comemorações de vitórias momentaneamente consagradas por um gol ou por coros de torcidas enfurecidas com qualquer jogada frustrada que não compreendo. Vejo somente uma bola rolando – para lados que me parecem idênticos – à revelia de jogadores que mais parecem fazer parte da mesma equipe… de luta livre. Sim, porque as regras são claras e valem pontapés, chutes, braçadas, piruetas pouco dignas, cabeçadas, touradas no abdômen alheio, tapinha na bunda (tapinha na bunda?)… enfim, vale tudo.

Há pouco comecei a assistir a uma partida entre Vasco e ABC (seja lá o que a sigla signifique para os machos de plantão)… há pouquíssimo seria mais correto, pois, enquanto brinco de dedilhar desinteressadamente o teclado, a bola rola. Não só a bola, porque já vi até um dente rolar no meio de campo. Isso mesmo, um dente. Um jogador tenta impedir outro jogador de completar uma jogada. Eu não vejo perigo nenhum, portanto, também não entendo tamanho empenho de um jogador impedir o outro jogador de dar meio passo a frente. Porque nem isso o outro jogador (a futura vítima dessa arena moderna) conseguiu completar, nem meio passo adiante do beiço, que foi interceptado por um punho cruel de boxeador invicto. Cai o jogador e voa o dente… se a ordem foi inversa, me perdoem, não foi possível registrar. Só sei que o grande corpo ficou estirado esperando o médico da equipe, enquanto a câmera jamais conseguiria admitir que havia também um dente na grama.

Eu fico perplexa e fixo os olhos no canto da tela, só pra me certificar de que se trata, ainda, de um jogo de futebol. É um jogo de futebol, afirma convicto o marido no sofá. Sempre foi, eu é que ainda não havia dominado as regras. De fato, vale tudo, da cintura pra baixo, da cintura pra cima, vale até chute no colega do time, se este for muito inconveniente. E, para resolver conflitos, basta recorrer à sinceridade do Ricardinho do ABC, que chuta sem disfarce o jogador adversário e, quando o juiz aponta o cartão amarelo, coloca a mão na boca, mostrando ao juiz sua vingança pelo dente perdido do colega. Afinal, até no futebol deve haver um código de honra e, certamente, arrancar sem anestesia o dente de um jogador não vale.