amor fraterno

chorando

Estava pensando em como criança é cruel. E, sobretudo, como eu fui cruel quando criança. Logo eu, essa bocó que sou hoje.

Minha principal vítima era minha irmã. Até ela ficar mais forte que eu.

Quando ela ainda era bebê, enchi a boquinha da recém-nascida irmã de miolo de pão. Eu vi que a pobre estava faminta. Minha mãe, no entanto, chegou a tempo de não ter uma filha falecida e outra presa por homicídio doloso.

Depois disso, taquei talco nos olhos da boneca predileta dela. Só porque mamãe chegou a tempo de eu não fazer isso na dona do brinquedo.

Mas a coisa que eu mais gostava de fazer era mostrar a ela uma ilustração de um livro de capa dura do Pinóquio. Era a parte em que o boneco de madeira fica preso na baleia, e a imagem era de um animal horrendo, com várias fileiras de dentes de uma boca escancarada por toda a página. Ela se desesperava, e eu, em meu mais alto grau de sadismo, me deliciava com todo o seu pânico. A bichinha tremia de medo. E eu de rir.

Mas isso passou logo. Ela teve muito mais força que eu ainda na infância, e toda vez que brigávamos – fisicamente falando – ela sempre levava a melhor. Eu sempre saía muito machucada, porém o meu terror psicológico deixou marcas nela até hoje, porque a maninha ainda morre de medo de mamíferos aquáticos.

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