plástico contagioso

POR FELIPE EUGÊNIO

Uns amigos dizem que para reconhecer um esteta, basta privar da companhia de um. Há cada vez menos deles por aí, comentava um desses amigos meus. Mas ver um era o suficiente para sabe-lo. Estetas, pelo que eu entendia, em cena aparentavam alto-relevo. Segue simples o protocolo que cumprem tais seres: são mulheres e homens que existem numa dimensão sempre desdobrada. Esta que, não sendo dupla pela esquizofrenia, se dá quando leem o mundo como quem, ora só! , como quem lê. Não é mais metáfora como mensagem. A leitura das coisas no entorno e de si, é um exercício de consumir o artifício de algum autor de bom gosto; se possível, de bom gosto e ousado. Mas não sendo leitores fáceis, os estetas prestam mais atenção nas estratégias artísticas dos jogos de palavras do que nas histórias em si – e que, por sinal, eles adoram quando são banais as histórias narradas; isso ressalta a arte de embaralhar frases, dá graça ao narrar, engorda e faz crescer.

Os estetas são capazes das maiores barbaridades. Estão no mundo para surfar por sobre ondas mnemônicas, desimportam os valores morais. Diante da vida, vale mais o sutil-extraordinário-de-Almeida: aquilo que dá à existência um pouco de luz e sombra para atropelar o mundo sem trilha sonora. Estetas são hedonistas sim, não há dúvidas: conquanto que num mundo noir, ressaltam os mesmos enquanto ajeitam seus elegantes óculos.

Encontrei com um desses no aeroporto. Julguei ser um homem que estava de partida e não errei. Usava nada como paletós, não era um sujeito distinto no vestir, outrossim, trazia nos olhos algo próximo do modo como cofiava a barba. Da barba, estava claro, gostava de pentear os fios com os dedos porque gostava do verbo “cofiar”, isso o levava para um outro ambiente; o rito substituía o motivo para o movimento. Cofiava a barba e poderia, num rompante, deferir um discurso insólito diante de um senado atônico; vá lá que sonhava assim. Olhava de um mesmo modo obtuso, desta vez, menos verbocêntrico, porém guardando no modo de observar certo jeito de filmar e ser, em simultâneo, filmado. Ele tinha o rosto de ator de filme dos anos 1970 em Manhattan, e fitava as coisas ao redor como um plano-sequência de Steiner se estivesse de fato no Marrocos – e aí os olhos, esses mesmos que serviam de câmera e de modelo, se perdiam em considerações sobre estúdios e externas para construir um filme clássico: afinal, não se poderia controlar o vento, claro; no entanto, o sol se permitisse ficar estourado na câmera, ah, certamente criaria uma atmosfera única, bastaria medir o suficiente para não cegar num clarão toda a fotografia e… E, assim, só de olhar meu companheiro de aeroporto em seu gestual típico, eu que nem me importo muito com a forma, já me contagio com sua performance. Estou mais que divagando, fiquei paralisado construindo uma alma para sua personagem wildeana. Das duas uma, ou maluco, ou viado. Qual chocaria menos minha mãe?

Descrever o tipo não ajudaria muito: eu me entregaria a detalhes e perderia o fascínio que a figura despertava em mim. Nesse ponto, devo esclarecer sobre essa minha falta do que fazer. Não sou um deslumbrado por pessoas em geral. Tampouco vou justificar minha opção sexual para o quanto observo ou não um gênero. Ao passo disso, de “esclarecências”, padeço de uma curiosidade grande por coisas enigmáticas. E valem, nessa seara, as mais bobas coisas enigmáticas. Ou seja, valem os mitos populares para me fazer roer a unha. Se me vejo diante de uma história instigante ou de uma sentença mezzo metafísica, só sossego até saciar empiricamente meu ceticismo. Assim foi com o leite e a manga, meu début quando pequeno. Depois, na puberdade, vieram fugas de casa para encontrar o fim do arco-íris; seguidas de apontar dedo para estrelas, de chutar macumba, de ver se cobra preta mamava, de seguir anão pela rua para ver o que fazem; coisas do gênero que por vezes assaltavam meu cotidiano. O esteta do aeroporto foi uma dessas compulsões de curiosidade. Não tanto que me rasgasse. Não me contive, porém. Pra variar, variei.

Era um dandi ou um flanêur? Foi minha primeira pergunta. Ele, se tivesse ouvido, provavelmente escolheria o dandi. Faria isso só para ver minha reação e maior curiosidade sobre sua possível história de decadência. O esteta não ouvia meus pensamentos, e, felizmente, tampouco percebeu que eu o seguia desde que passou pelo check-in. Gosto de ver pessoas sem a afetação de se saberem observadas. A performance dele, do meu esteta, era distante de afetações. Acredito que ele só existia mesmo a partir do belo. O resto do mundo à exclusão da arte, tudo que fosse instintivo ou demasiado natural, se não passível de observação que resgatasse a coisa de sua gratuidade, decerto o entediaria a ponto de sequer estar nesse lugar real, com pés no chão. Tudo deveria ter a mão humana para produzir sentido. Reconheci isso quando ele brincou com duas crianças na fila. A mais nova, o bebê, pouco lhe interessou, embora fosse adorável de tão bonito e brincalhão. Tá certo que babava e, depois vi, gofou no pai quando resgatado do carrinho. O segundo, irmão do pequeno gofador, de idade tinha cerca de cinco anos e era falante; esse sim foi agraciado com o agachamento do homem e umas palavras que, não de muito perto, pude perceber ser uma série de trocadilhos – mais sonoros que semânticos – com os quais o esteta brincava com o filho alheio. Um esteta gosta de emburacar numa genealogia do criativo, e nada melhor que um ser humano com cinco anos. Um bebê é a pré-história do homem. Serve não, é muito limitado. Não saber manipular códigos é viver numa gratuidade, no nulo da estilística. Cadê o impacto no receptor?… Incrível eu escrever isso agora. Costumava pensar que tais coisas eram boçais porque pareciam perfumaria. E parecem. E estou confuso. Contagiado ou afetado?

Só não maior é minha confusão de agora, de ordenado-autor (e não o inverso), do que quando, no aeroporto, vi meu amigo esteta sair da fila e, num átimo, ultrapassar a saída do saguão para a rua.

Ué?

Dominando meu “ué”, parti para segui-lo. Não era agora um mero anão-a-ser-pesquisado, era um tipo que ninguém seguiria, sem ditos populares que cercassem o mito. Meus amigos adorariam saber o desfecho da coisa. Um esteta – diziam – é, afinal de contas, um previsível pelo luxo de poder dispensar condições materiais diante da fortuna do espírito. Qual o quê?! Eles viajam muito nessas frases que servem de epígrafe. De cara, eu achei que o esteta estivesse correndo para o banheiro – a natureza chamando o homem afinal. Mas não, ele saíra mesmo do aeroporto. Não me fiz de rogado e o segui. A velha e típica cena quando entramos esbaforidos num táxi: siga aquele carro. Os motoristas – eles sim, com senso estético invejável – além de não rirem do lugar-comum, não obedecem ao roteiro: saem com o carro como sairiam com qualquer passageiro, numa boa, numa paz de acelerar só o suficiente, de saber que carro a gás ainda é mais rentável que a gasolina, pensamentos soltos assim, vagarosos tanto quanto inúteis para uma perseguição.

No entanto, essa saída nada espetacular do meu táxi foi suficiente para alcançar o do esteta. Eis o segredo: engarrafamento na saída da Ilha. Desses proveitos de uma cidade imensa para perseguições do gênero de suspense. Perseguir sem suar é possível na cidade maravilhosa. Em São Paulo, perseguir sem suar é regra; e, para o bem da saúde, estando numa marginal, sem respirar é conselho. Melhor que tudo isso, só o mundo das intempéries: a falta de tomadas de energia elétrica nos carros de praça. Enquanto aguardo sairmos os dois táxis da Linha Vermelha, estes escritos tomam forma no laptop. Diante da bateria apagando, cesso a coisa de rabiscar e sigo aqui, parado, seguindo outro alguém sem seguir escrevendo. E aí fico cacofônico. E por que me importo com isso é que não sei.

É um esteta… Bateria acabando, mas tenho de escrever isso que agora vejo: ele é um esteta de fato! A cena que avisto do meu taxi, não estivesse a rádio sintonizada em programa de louvores evangélicos, seria… cada tecla menos energia…

Mesmo no taxi engarrafado, o puto fuma. E o cigarro não é um qualquer. Daqui dá pra ver… A fumaça que sai pela janela aberta é bonita. Formato semiespiral. Quem dera uma foto sépia nesse instante, quem me dera; maldito seja o celular mais barato. O fio de meada, sinto que perco a boa forma na escrita, angústia de descrever sem escritura (…)

Pfíu

(desde o tempo de Alexandre, O Grande, esta era a onomatopéia para laptops que descarregassem à revelia dos autores desesperados)

Anúncios