Meu primeiro amor

Quando eu tinha, sei lá, uns cinco anos, era apaixonada pelo meu vizinho, que devia ter uns oito.

Teve um dia que não consegui mais segurar tamanho sentimento e decidi chamá-lo para me declarar. E o fiz. A reação dele foi a mais blasé possível:

— Ah, a Zethinha também gosta de mim.

Não soube o que esperar depois disso. Ele foi embora, e me senti mais aliviada por tirar aquele peso de mim.

Uns dois dias depois, eu, sentada no portão de casa com uma dor de garganta terrível, vejo o Juninho, meu amado, se aproximar com dois sacolés de groselha da Dona Isaura na mão – o meu preferido. Ele me estendeu um, e eu, entre o medo de aceitar, e mamãe me matar por causa da dor de garganta, e não aceitar e ele ficar chateado, só consegui dizer:

— Mas não precisa…

Ele só respondeu, objetivamente:

— Agora você vai ter que se acostumar, é minha namorada…

E eu pensei que aquilo devia significar algo mesmo… Até porque para conseguir comprar sacolé na Dona Isaura já era uma prova de amor, pois ela era meio surda, e a gente ficava gritando no portão até dar sorte de ela escutar.

Hoje, posso constatar que ninguém barrou o romantismo do Junior com seu presente inusitado. Adoro homens práticos.