razão

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A homenagem.

 

Não sou cria de um lar de leitores. Meu pai tinha muitos livros na estante, mas nunca o vi lendo. Ele trabalhava demais, durante toda a noite, e chegava a casa, longe de seu emprego, apenas para dormir e acordar para trabalhar de novo.

Mamãe só estudou até a quarta série, na época em que ainda se chamavam séries. Ela sempre gostou, mas não teve apoio nem possibilidade de concretizar seu desejo de estudar mais.

No entanto, ela foi meu maior exemplo. Apostávamos corrida para ver quem lia primeiro os livros paradidáticos e os textos do livro de Comunicação e Expressão da época. Conversávamos sobre o que líamos como duas grandes entendidas no assunto. E talvez já fôssemos mesmo.

Ela se chateou quando gastou dinheiro que não dispunha facilmente para me dar uma coleção de clássicos da literatura infantil. Eu não dei muita atenção. Apenas gostava de uma figura do livro do Pinocchio que assustava minha irmã menor. E até hoje não sou muito afeita aos clássicos.

Depois, ela me presenteava com qualquer livro que eu quisesse, e morria de orgulho quando comecei a chamar de meus os livros esquecidos na estante por papai.

Fui moldando meu (bom) gosto literário na prática, e ela caminhou junto até quando pôde. Quando voltou a trabalhar pesadamente, teve de desistir das noites insones ao lado de um belo livro. Deixou para mim seu melhor amante.

Esta é uma homenagem a ela, que me ensinou que o prazer da leitura independe de qualquer outra coisa, e a paixão nasce onde se cultiva; e cresce forte e bonita.