Doce infância

Quando Viviani era criança e sua mãe a colocava de castigo, o que acontecia constantemente, ela fugia pela janela e ia reclamar com a avó paterna. A vovó sempre dava um jeito de livrar a netinha da fúria materna.

 Quando Glauce era criança, seus primos a maquiavam e vestiam como miniadulta e a levavam a uma boate de black music no subúrbio carioca. A mãe dela ficava louca.

 Quando Claudia era criança, convidava todos os seus amigos da rua para aproveitar o verão na piscina Tony que havia ganhado dos pais, contrariando as ordens de sua mãe. Até que, um dia, um anônimo coleguinha deixou boiando uma obra-prima na água, obrigando todos a irem para as suas casas mais cedo.

 Quando Daniela e Mariana eram crianças, recebiam, de quando em quando, a visita de uma tia que adorava roer ossinhos de frango assado. Quando elas sabiam que Tia Licinha ia vê-las, tentavam guardar as sobras do frango desde a semana anterior.

 Quando Carolina era criança, tinha um primo que a tirava do sério. Até que, certa feita, em plenas férias familiares, deu uma surra no pobre garoto usando a mangueira com que tomavam banho no quintal. Na frente de todos, que olhavam boquiabertos, sentindo-se aliviados pela coragem que só ela teve.

 Quando Michele e Samantha eram pequenas, pintaram de preto o para-choque do táxi de um tio que fora visitá-las. Achavam que ele ficaria felicíssimo com a surpresa que preparavam. A mãe teve de ficar horas esfregando solvente no carro. E nas filhas.

 Quando Daniel era criança, no meio de um culto evangélico para os pequenos, pediu a palavra e só proferiu uma, em alto e bom som: – Peido! A mãe quis sumir na hora.

 Quando Monica era criança, fazendo a lição de casa, não conseguiu escrever a palavra palhaço. A mãe, achando que era má vontade, deixou ela sentada à mesa até conseguir tal proeza. Saiu nos braços do pai, depois de ter dormido sobre os cadernos.

 Quando Daniela era criança, a avó a obrigava a tomar achocolatado em copo de plástico para não haver o perigo de ela deixar cair. Ela odiava o cheiro que impregnava no copo e chorava copiosamente para não precisar passar por isso. Até hoje ela fica arrepiada ao ver copos que não sejam de vidro.

 Quando Francisco era criança, vivia esbarrando em tudo e qualquer coisa. As primas mais velhas morriam de rir, até descobrirem que o pequeno tinha seis graus de miopia.

 Quando Talita era criança, morria de medo de brincar de chicotinho queimado. Sofria de uma angústia sem medida por ter de adivinhar se colocariam o chinelo atrás dela. Mas era melhor enfrentar isso do que as amigas enchendo seu saco para aumentar a roda.

A infância realmente é a época da ingenuidade, alegria e despreocupação.