amor demais

eu não me lembro da primeira vez que tive dor de cabeça, porque a gente não tem memória tão longínqua, mas me recordo de uma situação que me faz ter peninha de mim. tinha uma amiga de mami em casa, e ela, conversando, falou que nunca teve dor de cabeça na vida. eu, uma fedelha, olhava para cima (sim, eu já fui pequena), com um olhar de incredulidade, já antecipando a maturidade: a vida realmente não era justa. desde pequena eu já sabia das coisas.

também não me lembro de quando comecei a ler, mas era muito nova, tenho certeza, pois a família se orgulha disso até hoje. e para quê, né?! acabei fazendo “letras e bebo para esquecer”. eu não me arrependo do curso, mas podia ter feito engenharia e estar rica hoje… aí, sim, faria letras a título de deleite pessoal. enfim, a questão é que amo ler. amo, amo, amo. e hoje me sinto uma prostituta literária: só leio por dinheiro

comecei com a turma da mônica. nas férias, quando não viajava para saquarema, lia uma revistinha inteira, voltava ao jornaleiro e comprava outra. era um looping eterno. até eu ficar amiga do moço da banca e ele deixar eu trocá-las. só que tinha uma hora em que elas acabavam, e eu morria de depressão até a semana seguinte.

minha vida mudou quando eu li a droga da obediência. mudou. pirei. li tudo do pedro bandeira e queria ser a magrí. até fundei um clube de investigação no colégio, mas nossas suspeitas de haver uma freira enterrada no palco da escola nunca foram confirmadas.

tive a fase de júlia, sabrina e bianca. devorava essas porcarias incessantemente durante as férias chatas em cabo frio. o bom é que era barato e durava um pouco mais que as revistas em quadrinhos.

comecei a flertar com sidney sheldon e tivemos uma paixão arrebatadora. coisa de criança, óbvio. adorava o sexo, amor, poder e dinheiro. mas me lembro de uma professora no pedro II dizendo que sheldon não era literatura. falou para outra aluna que confessou publicamente seu amor por ele, mas eu fiquei com vontade de matá-la por subestimar nosso amante dessa forma.

eu também lia paulo coelho em sua fase mística… é, eu sei.

como já mencionei, tive a felicidade de estudar em um colégio incrível, e a literatura lá era muito valorizada. foi quando eu conheci um dos grandes amores de minha vida: rubem fonseca. e eu tenho isso de enlouquecer e monotematizar quando me apaixono. li tudo do cara, quer dizer, do senhor. até hoje a gente ainda se dá muito bem…

amo machado, amo. gosto bastante de clarisse, adoro graciliano, lygia. mas saquei que a minha são os contemporâneos.

outro amor arrebatador foi sérgio sant’anna. para esse eu me declarei. tudo culpa do vinho branco barato de um lançamento. com as “vozes veladas, veludosas vozes” das amigas nos ouvidos, fui até ele e disse o quanto o amava. tive medo da decepção, mas ele, um gentleman, me tratou tão bem que o amor só fez aumentar.

agora os romances são tantos e tão lindos: cuenca, galera (hmmm), arruda leite (porque o amor literário é livre), mutarelli, prata, terrón… eu tenho muito amor para dar, sabe?!

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