cheiro de mofo

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enquanto esperava as portas do avião vindo de curitiba se abrirem para eu sair no aeroporto mais feio do brasil, eu me lembrava dos olhos sem brilho dele olhando para mim.

mamãe morreu quando eu tinha 17 anos. eu tinha acabado de entrar na faculdade, e aí ele inventou que não ia mais pagá-la para mim. na cabeça dele, eu teria de fazer o papel da dona de casa que morreu. e isso porque tínhamos empregada, daquelas que dormem no trabalho e só têm folga uma vez em cada 15 dias. coisas loucas desse país louco.

não aceitei. ele disse que ia ter de me virar. ok. me virei. vovó me ajudava, consegui bolsa na faculdade, vendia avon, natura e mais qualquer coisa que aparecesse. e fui levando.

cinco meses depois de perdermos mamãe, ele veio dizer que estava namorando. não dissemos nada. meus irmãos e eu não conversávamos mais com ele. algumas semanas depois do anúncio, ele veio comunicar que ele e a namorada iriam se casar. e morar em curitiba, terra natal da mulher.

nossa cara de interrogação o obrigou a ser mais explícito: ia vender nossa casa e ir embora. a gente ia ter de se virar de novo. ok. nos viramos. cada um para a casa de uma parente, começamos a trabalhar muito cedo e conseguimos levar a vida.

eu fui morar junto com meu namorado quando eu tinha 24 anos. hoje, com 31, ainda estamos juntos. nunca havia mencionado meu pai para meu marido. ele tava morto para mim desde os meus 17 anos, quando ele fez a escolha dele.

mas aí a segunda mulher dele conseguiu o telefone de um irmão para avisar que nosso pai estava morrendo. nenhum dos dois quis ir vê-lo. eles são bem mais novos que eu e disseram que nem se lembravam mais da cara dele. eu também não quis ir, mas meu marido usou todos os argumentos de alguém que já conviveu com um pai poderia ter. e lá fui eu para o paraná.

ele estava no hospital erasto gaertner com um câncer terminal devorando um lado de seu rosto. eu entrei e senti aquele cheiro de mofo que sempre achei que ele exalava. tive ânsias de vômito ao vê-lo naquele estado. não tive pena. tive nojo.

ele se virou para mim e me mirou com o olho que ainda restava. sem brilho. a mulher dele disse baixinho “olha quem veio te ver?! sua filha.” ele me fitou por alguns segundos e resmungou com a mesma voz de sempre: “eu não tenho filhos.”

não esperei mais nada. me virei e fui embora. agora estou aqui, já no galeão, puta da vida porque vou chegar atrasada no trabalho. sem necessidade.