amor de hospital

 

ela vivia cheia de ziquiziras. e naquele mês o inferno astral dela se resumiu em visitas constantes a consultórios e hospitais.

nesse dia, ela saiu mais cedo direto para uma emergência. enfrentou olhares de inimizade do chefe e andou, cambaleante, até um táxi recolhê-la. e ela torcendo para a corrida não dar mais de treze reais.

atualmente, nada difere mais um hospital público de um privado. nada mesmo. então, ela esperou quase uma hora para ser atendida; querendo morrer na recepção.

foi consultada com pressa por uma menina mais nova que ela, foi “fazer a medicação” e continuou sofrendo.

a náusea voltou com tudo, e ela pediu para um rapaz chamar o enfermeiro porque ela ia vomitar – presa no soro, não podia sair correndo. o enfermeiro veio com toda a urgência que a maioria dos profissionais de saúde têm (ironia detectada). ela vomitou o resto de alma que lhe restava. na frente de todo mundo que estava sendo medicado junto com ela na enfermaria.

ela morreu de vergonha, nojo, constrangimento. pediu desculpas às pessoas, que estavam mais preocupadas com suas próprias mazelas, e o rapaz que a ajudou disse: “não sei se alguém já te falou isso, mas você é a cara da julia roberts.” ela nunca tinha visto a julia roberts vomitar, mas constatou que só podia ser amor.

vivem felizes até hoje. evitando salas de emergência.

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