uma merda de neta

foto

 

 

eu fui uma merda de neta.

e não adianta balançar a cabeça negativamente aí de cima, vovô nelson, é verdade. tudo bem, em minha infância, estive sempre ao seu lado, mas, da adolêscencia em diante, fui cretina o suficiente para me afastar.

no entanto, me lembro de que amava ouvir suas histórias. as mais mentirosas eram deliciosas. e eu acreditei que você capinou tanto num dia, que a cabeça baixa por muito tempo fez um olho seu sair da órbita ocular e cair no chão. mas você, muito sagaz, pegou rapidinho, limpou na calça e colocou de volta no lugar.

você também deixava eu pentear seus cabelos pretinhos… que no final da vida continuaram mais pretinhos que os cabelos de muita amiga minha da minha idade (aliás, obrigada por deixar isso impresso no meu dna). magrinho, com suas roupinhas de sempre, o relógio de sempre e um chapéu que continuou usando mesmo depois que saiu do sítio, sempre estava de olho no jardim da vovó, tirando os galhos secos das plantas, ajeitando as cercas e cumprimentando os vizinhos… mesmo que as filhas reclamassem que o senhor não podia fazer mais tanto esforço.

e só aceitou que precisava de bengala quando meu pai, que se fosse seu filho não se pareceria tanto, deu uma de presente para o senhor.

mimou tanto alguns netos, que deixou as filhas com ciúmes. mesmo que elas não admitam isso até hoje. sempre muito generoso com a gente. mesmo com a merda de neta que fui.

 

 

um avião com destino à felicidade

Mexendo-no-computador

vilma era muito burra. emocionalmente burra feito porta. muito mesmo. ela e moacir tinham uma história incompleta e sempre ensaiavam finalizá-la. nunca dava certo.
vilma tinha obsessão por comida. tentava fazer dieta, mas não tinha a mínima força de vontade. ela só não se importava tanto porque tinha certeza de que teria uma doença muito grave, mas não letal, que a faria emagrecer e voltar a ser linda. só não pergunte como ela chegou a essa curiosa conclusão.
moacir era escorregadio e covarde. não há muito mais o que falar sobre moacir.
vilma era emocionalmente burra feito porta.
um dia, conversando pelo skype, resolveram ligar a câmera e voltaram a se apaixonar. uma paixão louca, que a fazia se sentir viva novamente. moacir só queria comer vilma.
marcaram uma viagem para o feriado prolongado que aconteceria em três semanas.
se encontrariam no destino, santiago do chile, pois partiriam de cidades diferentes.
vilma foi nervosa porque tem medo de voar. as mãos suadas a impediam de abrir a barrinha de cereal dentro da aeronave. pediu um vinho para relaxar, mas só havia seco, e ela só bebe os docinhos.
foi rezando sobre as cordilheiras e passou mal na hora em que a turbulência apertou.
aterrissou, foi bem tratada na imigração e sentou-se em frente a um guichê de câmbio de moedas à espera de moacir.
moacir não chegou.
e vilma viveu feliz para sempre se livrando daquele estorvo.