minha língua em você

cinzas-crematorio

Não sou o tipo de mulher que levanta a saia e aperta a coxa para mostrar que tem celulite. Você pode achar essa frase estranha, mas só se você for homem; isso é muito comum entre as mulheres, e eu nunca entendi isso.

Eu escondo os meus defeitos. Ninguém é obrigado a ver algo que nem eu gosto em mim.

Erasmo foi o único que entendeu isso. Nunca exigia de mim mais do que eu podia dar. Éramos apaixonados e vivíamos um sonho.

Só que o roteirista da minha vida adora uma comédia de erros, e Erasmo morreu. E só foi comédia para o tal roteirista. Eu sofri muito.

Fiquei medicada durante um bom tempo. Mas aí a realidade me ligou e disse que eu precisava ir ao cemitério buscar as cinzas de Erasmo.

Comprei uma urna linda e fui chorando no banco de trás do táxi. Os óculos escuros escondiam meus olhos vermelhos, inchados, mas meu choro era bem audível e já estava ficando com vergonha.

O motorista, com dó de mim, me deixou bem em frente ao prédio do cemitério vertical. Depois de alguma burocracia, recebi a urna preenchida de Erasmo. Agarrei ela com muita força, até sentir meus músculos do braço, ombro e pescoço doloridos de tanta tensão.

Assim que cheguei em casa, algo que não sei explicar aconteceu, e um pouco das cinzas caíram na minha mão. Sem pensar, lambi Erasmo.

Um gosto ruim, de terra, de produtos químicos, um cheiro forte, mas eu abri a urna e lambi Erasmo mais um pouco: umedecia meus dedos e os enterrava em Erasmo. Me achei doida, mas era algo natural, era algo que eu deveria fazer.

E eu fiz. Durante uma semana. Até consumir Erasmo totalmente. E a merda é que a cinza me fez tão mal, que vou ter de fazer uma endoscopia e mostrar para vários médicos defeitos que provavelmente tenho dentro de mim.