eu não sou nenhuma santa

conto

 

a gente só funcionava sob efeito de drogas. lícitas ou não. quando estávamos sóbrios, nem a conversa fluía. mas quando estávamos “altos” a conversa nem era conversa, era só um estimulante sexual para o que viria a seguir: uma corrida para a casa do outro naquela sofreguidão louca.

e sempre tinha álcool ou maconha em nossas casas, para o caso de a sobriedade chegar e estragar tudo.

outro dia mesmo, estava num blind date que uma amiga me arrumou, porque todas as minhas amigas querem me desencalhar, e, às vezes, entro na onda delas só para não me encherem tanto o saco. até porque ninguém sabe da existência de danilo. sempre achei melhor assim, e assim é que tem funcionado. então, estava nesse encontro sem graça, num lugar chato e com muita raiva da amiga que achou que aquele ser ali na minha frente, querendo me ensinar a cozinhar arroz, porque era um absurdo alguém que mora sozinha não saber cozinhar (nem arroz), quando danilo me ligou. nem atendi, apenas mandei mensagem perguntando onde. ele falou que estava em casa me esperando. dei uma desculpa esfarrapada para o cara, mas não disfarcei o sorriso safado ao ler a primeira obscenidade que danilo me escreveu.

e foi foda. como sempre. a gente só evita dormir juntos, porque fatalmente enfrentamos uma ressaca olímpica no dia seguinte, e odeio ter de lidar com qualquer pessoa nesse estado, mas nesse dia a coisa foi tão intensa, que não tive forças para voltar para casa. na manha seguinte, enfrentei uma dor de cabeça absurda e saí sem banho para curtir todo aquele mal-estar no meu quarto.

isso já faz 20 dias. ontem ele me ligou sóbrio e partiu meu coração: me contou que está com cirrose.

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