come on, i’m talking to you, come on

raqolive

por raquel oliveira

 

bora falar logo porque odeio ficar guardando mágoa: ontem, na hora de ir embora, quando pedi pra você arrumar o narguilé, você gritou comigo, foi bem grosseiro e não entendi o porquê de você ter feito isso (já que não pedi nada absurdo, coisa que a gente sempre faz na casa dos amigos).

olha, entendo que você estava cansado, trabalhou todos esses dias, o problema não foi nem por você não querer fazer o que eu pedi (até porque, no fim das contas, você fez, ué). foi você gritar comigo. minha mãe (que dormia no quarto ao lado) acordou, e depois que você foi embora até ela veio me perguntar o que aconteceu. desconversei, mas fiquei chateada mesmo. posso até ser “sentimental”, mas não tolero que gritem comigo, e menos ainda alguém que eu gosto tanto. porra, não te trato com o maior carinho, com a maior doçura (mesmo quando o doce vem em formato de rapadura)? por acaso não te dou mais atenção, mais afeto do que a qualquer outra pessoa no grupo?

acho que eu não preciso falar que você é especial pra mim, de um jeito que eu acho bom não ter de falar porque eu (que falo pra cacete) não saberia explicar. compro o guaraná antártica mesmo preferindo coca-cola, peço desculpas quando piso na bola, procuro sempre te dar atenção, mesmo quando meio ogra – e ué, não somos ambos meio ogros? não, não faço nada disso esperando algum retorno, o único retorno que eu espero é que apareçam as covinhas de quando você ri. mas quando você grita comigo (ou me trata como sua little bitch), me magoa, me machuca, acaba comigo. isso me lembra um tempo em que passei muito por isso, e não gostaria de reviver esse tempo. Então, por favor, não grite mais comigo. te adoro de verdade, mas assim não rola.

pronto, falei. se você vai entender ou não já não sei, mas é uma dor de estômago a menos. eu sei que sou sensível e não acho ruim quando você brinca ou é meio ogro (pelo menos na maioria das vezes não), e detesto brigar com você, mas dessa vez fiquei chateada mesmo. então prefiro tentar ser clara (mesmo escrevendo uma carta) do que ficar remoendo isso. se/quando quiser conversar, sabe onde me achar.

comemorações

amizade

por chris leal

 

 

um texto de “feliz aniversário” tem, como princípio, a comemoração da vida daquele alguém que, efetivamente, comemora a vida naquele dia. evidentemente, este texto não tratará da questão minimizando essa comemoração. por outro lado, peço permissão (aos leitores; à aniversariante; a deus, se for o caso) para promover outra comemoração por ora. gostaria de, hoje, destacar a comemoração da minha vida. explico.

quando vasculho o passado, dificilmente consigo encontrar algum evento do qual ela não tenha feito parte, como protagonista ou coadjuvante. há muito, mais precisamente desde meados de 2005, dificilmente algo ocorreu por aqui sem que ali se soubesse, sem que ali se sentisse os reflexos, sem que ali houvesse alguém para (com) quem eu precisasse contar.

ali já foi cap, já foi indayaçu, já foi norte shopping, já foi praia, já foi parmê, já foi a 10 minutos da minha casa. há alguns anos, “ali” atende deliciosamente como a sala bem em frente à minha.

é ali que posso chegar contando uma história e receber sorriso largo, que posso chegar chorando e receber um doce abraço, que posso chegar tímida e receber olhar compreensivo de quem diz: ok, pode chegar, pode ficar – desde que eu não tenha muitas redações para corrigir.

ali é o lugar em que eu posso ser eu, mesmo quando isso não é muito bom. é o lugar em que eu posso falar de pessoas, de sonhos, de ciúmes, de amores, de trabalho, de amor pelo trabalho.

ela sabe que eu preciso de um biquíni, de café depois do almoço, de uma blusa com rostos de mulheres, de um filho, de torrada petrópolis, de mais paixão, de uma caneca de chopp, de final da copa, de coxinha.

é difícil contar do que ela não sabe. impossível dizer do que ela não faz parte.

o fato é que, quando penso em minha vida, penso na felicidade que é comemorar a sua vida. feliz aniversário!

 

 

 

 

 

 

 

do riso ao pranto

por biazica

 

alicinha

temos um grupo de amigas no zapzap, e a mic sugeriu que cada uma de nós escrevesse um texto para seu blog. então eu pensei em escrever sobre a maternidade, porque tenho uma filha de quatro meses e meio e todos os desafios estão registrados com muita nitidez na minha memória. mas logo percebi que não poderia escrever sobre a maternidade, como uma experiência coletiva que une as mães numa solidariedade universal.

isso não significa que eu não tenha vivido alguns desses momentos que compartilhamos no consultório do pediatra. ao contrário, eu compartilho esse sentimento e me identifico com muitas questões, como as sensações de felicidade e pânico com a chegada a casa com um bebê no colo. a saída confusa da maternidade, a dificuldade de colocar o bebê conforto no banco traseiro (no nosso caso foi o manobrista da perinatal que fez tudo), o tremor nas mãos do primeiro banho em casa. essas são vivências muito comuns entre os pais de primeira viagem.

outra questão que nos une no início dessa caminhada é a insegurança, que no meu caso parecia uma onda de tsunami – contra a qual eu tinha certeza de que somente algumas de nós poderiam sobreviver sem maiores sequelas. eu sentia meus hormônios brincando numa roda gigante de emoções e – lá do alto – eu só sentia medo. então uma música ficava martelando na minha cabeça “você precisa de alguém que te dê segurança, senão você dança, senão você dança, dança”. aí eu olhava pra minha mãe e não sentia mais segurança nela, porque agora nós éramos iguais. olhava pro meu marido e ele estava calmo demais para me dar segurança… aí olhava pra alice e chorava…

acho que boa parte do que senti é universal, mas a minha especialidade mesmo é conviver com um bebê imprevisível. sempre ouvi que bebês gostam de colo, principalmente pra dormir – uma vez a alice chorava muito no meu colo, estava sozinha então coloquei só um pouquinho no carrinho para descansar minha coluna e… ela parou de chorar no mesmo instante. tirei e ela chorou, coloquei e parou… fiz isso duas vezes para ter certeza. então, ela dormiu no carrinho enquanto eu embalava e fingia que lia uma história e ela fingia que entendia.

a amamentação foi outro momento que me surpreendeu muito. não tive nenhum problema no seio e tinha muito leite. em compensação cada mamada era um susto porque a alice – muito gulosa – engasgava quase sempre. eu ouvia relatos de que meninos eram assim, mais ávidos, mas eu tinha uma menina meio moleque, porque até o arroto era alto como de um adolescente.

assim os dias foram passando… imprevisíveis. tinha raiva de livros, artigos e pessoas que falavam da rotina do bebê. que rotina? minha filha uma vez chorou tanto no meu colo e dormiu no trocador de fraldas. ela já dormiu no berço enquanto eu embalava com tapinhas no bumbum, mas também já berrou nessa mesma situação. já chorou pra sair do colo e para ficar no colo. já mamou de duas em duas horas e já ficou nove horas sem mamar. já chorou com um passarinho que piou na minha janela e nem acordou em uma apresentação de jazz com bateria de rock. quando fez o exame do refluxo, chegou à clínica e abriu o berreiro. morri de medo só de imaginar a hora do exame, que todas as mães já tinham alertado ser difícil… aí… a alice ficou quietinha rindo para a médica.

isso me fez lembrar do meu pré-natal. ela sempre se mexia muito… no início eu fiquei até assustada. mas no exame para ver o sexo ficou quietinha e teve que ser sacudida pela médica. depois houve o exame do coração. a medica que nos recebeu explicou que é difícil marcar horário porque poucos médicos querem fazer esse exame porque perdem muito tempo pois o bebê precisa estar quieto, o que não costuma acontecer… nem preciso dizer como a alice ficou…  acho que tudo isso já era um sinal dessa personalidade “do contra”.

mas, mesmo um bebê imprevisível consegue ser decifrado por sua mãe. e tudo é tão intenso que às vezes eu sinto como se fosse mãe há quatro anos, e não meses. mas aí a alice me dá um susto – engasga de novo, fica febril, fica muito agitada ou muito quieta – e eu sinto como se fosse mãe há quatro dias.

enfim, todos os dias são extremos, assim como o bebê, que vai do riso ao pranto.

 

 

 

 

raiva

raiva

eu fui passar o carnaval deste ano numa cidade pequena, no interior do rio de janeiro. Eu só queria sossego.

numa noite, na pracinha onde acontecia o carnaval da cidade, vi um casal mais velho fantasiado e achei bem legal. sorri para eles.

corta a cena e, sei lá, meia hora depois, o homem do casal veio em minha direção, e, por trás de mim, passou a mão na minha bunda.

me virei aturdida e olhei para a cara dele, que me encarava sorrindo. perguntei qual era a graça e ele veio mais perto resmungar alguma merda.

eu estava com um guarda-chuva na mão e comecei a gesticular ferozmente e a gritar com ele. óbvio que chamei a atenção do povo ao redor. mandei ele ficar longe. mas sabe o que ele fez? foi falar com o único homem que estava no meu grupo no momento para se desculpar.

a mulher dele, que voltou depois à cena, também foi perguntar para o mesmo homem que estava no meu grupo o que tinha acontecido. fui ignorada solenemente no processo de desculpas e sei lá mais o que os infelizes falaram.

minha maior e melhor amiga ficou ao meu lado gritando e xingando o mau-caráter. eu fiquei muito mal. muito. a noite acabou para mim. continuei lá, mas a merda toda martelando na minha cabeça. fiquei com muita raiva porque para 99% das pessoas para quem contei na hora riram. sim, riram. pessoas que eu adoro, e que sei que gostam de mim, mas não têm ideia do que é a violência contra a mulher (e se você acha que estou hiperdimensionando tudo, por favor, pare de ler AGORA e vá se fuder). por que a gente ainda vive num mundo em que homem acha que pode passar a mão em uma mulher e achar legal fazer isso? por que as pessoas acham isso divertido?

queria muito ter cuspido na cara dele, ter dado uma guarda-chuvada na cara dele, ter empurrado ele com mais força. e, depois, quando contei para amigas que não estavam presentes, todas ficaram orgulhosas, pois não fiquei quieta como a maioria de nós age nesses, infelizmente, corriqueiros eventos. e mesmo assim continuei com uma raivinha de mim. e a culpa de nada tinha sido minha.

e eu vou parar de escrever porque a raiva está voltando toda novamente. e eu não mereço.