pequena explicação e os primeiros textos

stella e eu adoramos escrever. faríamos um curso de escrita criativa juntas, mas acabei não conseguindo me inscrever. ela fez e adorou, entretanto o curso tem um valor não muito amistoso e são vários módulos etc.

bem, resumindo, decidimos fazer NOSSA própria atividade semanal de escrita criativa. propomos um tema e escrevemos sobre. e damos pitacos no texto uma da outra. simples assim. quem quiser participar é só avisar, somos uma dupla com mente aberta.

a stella arbizu trabalhou no mercado financeiro por mais tempo do que deveria. concomitantemente, fazia mapa astral legal. hoje é astróloga e publicou seu primeiro livro de poesias em janeiro, o Ponta de estrela. (http://www.amazon.com/Ponta-estrela-Stella-Arbizu/dp/8541607992).

tema da semana: ida ao dentista.

dentista-antigo

por stella arbizu

seria louco se a gente acordasse todos os dias com a certeza de que tudo que rolasse nesse dia daria certo. mesmo que a agenda estivesse marcando uma ida ao dentista. para a extração de um dente.

o peso da extração de um dente é equivalente a você ser chamada de puta sem ser, como se só estivesse reagindo a seus instintos sexuais guardados por mais de dezoito meses e fosse pega no flagra. e a extração de dente te dá uma culpa de que você não tomou conta do dente direito, não escovou quando tinha que escovar. mas, no meu caso, foi barbeiragem da dentista anterior que disse que sabia tratar canal e esburacou tudo errado.

peguei o metrô para ir até o consultório do meu dentista, que é meu parceiro de saídas, ainda bem. mas, o dia prometia uma nuvem cinzenta chovendo em cima de mim, mesmo sentada no vagão correto para a saída certeira em direção à escada rolante da estação exata. só que ela estava lá. uma mulher em surto estava no mesmo vagão. ia de um lado para o outro, balançando a cabeça, sacudindo a blusa e o casaco que segurava. me concentrei para não olhá-la. e quando as portas se abriram na estação exata, saí primeiro.

mas, ela veio atrás. e me alcançou na escada rolante. passou por mim e me bateu. e eu, emburrada pela extração do dente, entrei na vibração dela e reclamei. ela só não me acertou com um chute porque eu desci dois degraus. e ela subiu correndo a escada rolante para me esperar lá em cima. eu consegui raciocinar que o que ela queria eu não ia dar. atrás de mim vinha a multidão e eu fui descendo os degraus, deixando a multidão passar, atrapalhando o fluxo totalmente, causando a maior confusão. até que aparecesse um segurança para me questionar que raios eu estava aprontando. pisei em pés, arranhei canelas, mas o segurança chegou quando eu ancorei na plataforma. e contei para ele, apontando, que aquela surtada ali queria me bater.

daí pra frente foi só proteção. contato através de rádio e ela foi conduzida aos quintos. e eu pude passar, linda e ruiva, pelo saguão da estação exata, com o peito aos pulos, esquecida de que uma parte de mim seria extraída dali a quinze minutos.

meu dentista-parceiro foi muito gentil, se é que se pode chamar assim alguém que segura um alicate com força no seu dente e o balança pra lá e pra cá. olhei o consultório dele por outro ângulo, de cabeça pra baixo, em um momento que não posso precisar qual. mas, consegui me livrar da culpa quando vi o raio x da trilha errada que a dentista anterior fez na raiz do meu dente. irreparável. mas, existem os implantes e é isso que eu tenho na minha arcada agora. titânio.


por michele a. paiva

eles moravam no apartamento ao lado. um era muito educado, o outro muito quieto.

formavam um casal bonito.

o simpático era cabeleireiro e logo fizemos amizade. obviamente ele começou a cuidar do meu cabelo, e seu companheiro sempre muito sério, descobri que era dentista.

eles tinham uma cachorrinha que eu adorava, a dolly, uma poodle pretinha muito feliz.

um dia, numa emergência, acabei indo ao consultório do vizinho caladão. ele cuidou da minha dor de dente sem muita conversa e sem sorriso algum. agradeci, paguei e fui embora.

naquele mesmo dia, eles começaram uma briga horrorosa, o prédio inteiro ouviu. colei meu ouvido na porta e fiquei tentando entender os gritos, que ficaram mais altos e mais altos até que olhei pelo olho mágico e meu querido cabeleireiro estava correndo em direção ao meu apartamento.

esmurrou a porta, eu abri, acreditando que seria rápida para apenas abrigar meu amigo, mas o calado dentista entrou forçando a porta e me machucando um pouco o punho.

foi tudo rápido e sem gritaria: meu amigo se jogou no sofá e apanhou muito do companheiro. ele continuava calado, sério e compenetrado. a dolly veio correndo, mas ficou parada na entrada do meu apartamento, com a cabecinha inclinada, visualizando a cena.

tudo aquilo durou uns dez minutos. a única vez que tentei intervir, levei um empurrão, caí sentada na poltrona. uma vizinha idosa abriu a porta, colocou a cabeça para fora e quando viu o que estava acontecendo, entrou e trancou a porta.

quando a surra acabou o dentista foi embora. tentei abraçar o amigo, mas ele não deixou e saiu correndo para o seu apartamento.

chorei um pouco sem saber nem direito por que. dormi com sobressaltos e, na manhã seguinte, tinha um papel branco debaixo da minha porta escrito “desculpa”. nunca mais vi nenhum dos dois.