tema da semana: coisas que nos irritam

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apesar de eu ser uma das pessoas mais irritadas que já se ouviu falar na face da terra, não consegui terminar meu texto esta semana por causa dos frilas (yay!), mas a boa notícia é que flávia custodio se juntou à trupe e hoje debuta em nossos exercícios de escrita.

estudei com flávia na pós-graduação em mercado editorial. tive a sorte de perceber logo que ela escreve muito bem, ao contrário de tantos colegas jornalistas, mas pena que ela mora em outro continente agora… então os textos são bons motivos para mantermos contato.



a lista

(por stella arbizu)

Me convidaram a fazer uma lista das coisas das quais eu não gosto, mas de forma divertida. Fazer listas é uma coisa que eu não gosto. Mas como me proponho a ser uma escritora profissional e toda vez que colocamos profissional junto a algum substantivo, temos que deslocar o adjetivo divertido para o fim-de-semana. Por isso, deixei essa lista para o último momento, para que eu ficasse desesperada e me lembrasse do que não gosto bastante pressionada mesmo, como quando trabalhava com metas e adoeci, para mencionar uma coisa da qual não gosto.

Eu gosto de dirigir. Mas não atrás de um caminhão de lixo. Inclusive, se o ar-condicionado estiver ligado, a sensação é de que eu comprei o “gleid chorume” e instalei no carro. Janelas abertas são a saída. E dar distância da solução de higiene urbana civilizada pós-moderna desenvolvimentista. Não sei como isso funciona na Alemanha. Tenho até um amigo que foi pra lá no início dos anos 90 para trabalhar com reciclagem. Tá rico. Mas, tenho certeza de que não é da forma que se faz aqui. Vou procurar saber.

Não gosto de ambientes muito arrumados. O caos me ressignifica. Eu penso que quando está tudo muito arrumado falta calor. Tem que ter um livro fora do lugar, um copo esquecido na ponta da mesa, as almofadas espalhadas no chão, como num convite para o conforto, marcas da presença humana. Tudo muito arrumado me lembra alguém que saiu de um SPA extremamente embotocado, sem conseguir mexer as sobrancelhas e a testa. Falta impacto. Por isso eu amo a Maria Callas: tudo nela é expressão, até as ondas dos cabelos.

Comida fria me irrita. Muito. Chego a levantar da mesa como um furacão, fazendo o barulho dele ao levar o telhado de uma casa, e abro com violência a porta do micro-ondas. Volto pra mesa gritando palavras de ordem do movimento “LAVAGEM NÃO!” Haveria muita majestade nisso, resquícios de vidas passadas, se não fosse eu a esquentar a comida no micro-ondas. Mas, a minha família ignora. E eu fico com cara de quem comeu e não gostou mesmo.

Muitas vezes, prisões afetivas se estabelecem sem que a gente perceba. Uma irmã chantagista, um pai cobrador, uma amiga excessivamente carente, um namorado mentiroso e, pronto: você está cativa e talvez não tenha se dado conta. Mas, como disse Rosa Luxemburgo, só quem se movimenta percebe as correntes. Essa é a função da Liberdade, a capacidade de nos fazer mover. E de perceber as moções da vida. Eu não gosto de prisões afetivas e quando as percebo, não gosto das pessoas que as construíram. Não tenho como escrever de forma divertida sobre isso, porque vejo o pior do ser humano nisso, coibir o movimento do outro, privar a liberdade, o prazer. Quando Rosa Luxemburgo fez sua citação, fazia referência à luta das mulheres por igualdade de direitos e quis que quando se percebesse as correntes, se lutasse para rompê-las.

Termino minha lista aqui com este grito escrito dizendo que sou uma pessoa livre que não gosta de se sentir presa e que não gosta de quem a prende. E que farei de tudo para libertar e fazer sorrir qualquer mulher que se encontre em alguma prisão afetiva, mesmo sabendo que esta é a mais difícil de se libertar.


1001

(por flávia custodio)

Resolvi admitir para mim mesma que sou uma pessoa ansiosa, – daquelas que vivem sempre o futuro antes do presente, e que adiantam problemas que nunca aparecem –, depois de anos de inquietação pela dúvida se eu sofria ou não de ansiedade. O veredicto veio na verdade há alguns anos, quando comecei a me interessar sobre livros com listas de 1001 coisas que você precisa fazer antes de morrer. A princípio senti um grande alívio de pensar que a minha vida inteira já estaria planejada e impressa com textos e fotos. Esses livros pareciam a materialização da minha ansiedade em forma de calhamaços bem editados e visualmente atrativos que me trouxeram ainda mais consciência da finitude da vida, característica típica dos ansiosos.

Acho que o pioneiro foi o 1000 lugares para conhecer antes de morrer, da Patrícia Schultz, um dos meus primeiros guias de viagem. Logo vieram os 1001 filmes para ver…, os 1001 livros para ler…, os 1001 vinhos para beber…, 1001 cervejas para beber e os 1001 álbuns para ouvir…. Passei horas, dias, meses folheando todos cuidadosamente na livraria, e cheguei a passar noites mal dormidas fazendo as contas do tempo e do dinheiro que eu precisaria ter para visitar todos os lugares, beber todas as cervejas e vinhos, escutar todos os discos e ler todos os 1001 livros. Senti inveja de quem escreveu e editou estas listas, afinal de contas, eles teriam menos 1001 coisas para fazer na lista deles. Já saiam em vantagem.

No meio dos cálculos, fiquei confusa se eu deveria perder tempo lendo sobre as mais de dez mil coisas que eu precisava fazer antes de morrer ou se de fato eu começava a faze-las. E o que fazer com os lançamentos de vinhos, cervejas, livros e filmes que não entravam na lista, mas que certamente entrariam em uma lista futura? A logística também não seria fácil. Como andar pelo deserto do Saara e provar aquele must drink French wine? Tive alguns mini-infartinhos só de pensar que se eu continuasse a perder esse tempo todo esmiuçando os detalhes da empreitada eu precisaria de ainda mais umas duas vidas para dar conta de tudo. Para preservar o meu miocárdio e em nome do autoconhecimento também resolvi nesta mesma época assumir para mim mesma que, mais que ansiosa, sou uma procrastinadora – daquelas que leem listas de mil e uma coisas para fazer antes de morrer – e não fazem absolutamente nada. Mas a taquicardia, toda a vez que ando em determinadas sessões da livraria, continua.

tema da semana: primos

primos

por stella abizu

damiana tinha primos. nove. todos em torno da sua faixa etária. porém, por incrível que pareça, todos homens. seis do lado paterno e três do materno. e ela era a única bonequinha dos avós.

durante a infância, não se comportou como tal. entrava na brincadeira dos moleques de sangue e voltava da rua sem saída onde morava a avó paterna tão encardida quanto eles. gostava muito de girar, girar de braços abertos, como um helicóptero e depois tentar andar só para cair no chão e sujar a bermudinha florida que a diferenciava dos peraltas. só isso a diferenciava, mas, a certa altura da tarde, as flores se escondiam na poeira da rua de paralelepípedos. talvez, as marias-chiquinhas da sua cabeça a diferenciassem também, mas ela passava como uma estrela anticadente no meio dos outros cometinhas, não dando tempo para os passantes notarem outra coisa além do brilho que explodia da felicidade daquelas crianças.

contudo, o tempo passa e trouxe para damiana anseios vindos do amadurecimento que seus primos ainda não sonhavam em ter. ela se afastou deles, grudando em suas amigas da escola, para juntas definirem que roupas usarem e qual creme passar no cabelo. e também saber que aquele menino que estava olhando para a mocinha já calipígia jamais ligaria para uma delas. e o grude delas foi forte durante os anos de escola, mas não resistiu às escolhas diversas do vestibular e elas se separaram. damiana sofreu porque queria vínculos de sangue e não conseguiu construí-los na faculdade de administração que foi cursar. mas, se tivesse uma prima, não sentiria a distância da superficialidade das relações.

a roda do tempo gira e os primos também cresceram e foram estudar. damiana voltou a se aproximar deles, mas, ora, são homens. com quem dividir o papo-calcinha? com quem falar sobre aqueles amores não concretizados e os outros bem vividos? ela queria uma prima, sempre quis.

até que damiana foi trabalhar em outro país. e ficou cinco anos fora. era uma executiva de sucesso. se cansou da vida no exterior e voltou ao brasil, devidamente encarregada de gerir uma grande empresa. voltou a tempo de participar do casamento de um dos primos com uma escritora iniciante. eles iam ser seus vizinhos após as núpcias. quando voltaram da lua-de-mel, a escritora lançou um livro de poesias e damiana foi ao lançamento para se encantar com os poemas. ela quis conhecer mais a prima que… ei! prima? será que poderia pensar que construiria uma amizade com aquela escritora que virara sua prima porque casara com seu primo? será que finalmente realizaria o sonho da prima própria?

damiana e a prima própria trocaram muitas mensagens pelos smartphones. tomaram muitos cafés em livrarias. foram a algumas exposições. e dividiram segredos. dividiram também nomes de cremes excelentes para os cabelos e o nome daquele esmalte que está dando alergia na unha e na carne.


por michele a. paiva

ele não era só o filho do meu tio, meu primo, ele era o homem da minha vida.

foi com ele que descobri o amor, o beijo, o sexo… fomos criados juntos, éramos meio como irmãos, morando um ao lado do outro. a autoridade de nossos pais se misturava, e obedecíamos e desobedecíamos os quatro do mesmo jeito.

não preciso dizer que nosso amor foi escondido. nas poucas vezes que nos descuidamos, nossos pais reagiram com raiva e temor. como éramos bons em nos escondermos, continuamos com nosso modus operandi.

mas eles não se enganaram por muito tempo e mandaram meu primo para um intercâmbio sem data de volta.

não havia internet, e ainda éramos muito novos para cometermos loucuras inconsequentes, por isso nos escrevíamos todos os dias. sim, todos os dias que chegava do colégio, tinha uma carta para mim, e acredito que para ele também. escrevíamos um diário juntos.

no entanto, depois do seu primeiro semestre fora, as cartas (dele) não tinham mais tanta constância. meus tios decidiram morar em londres, onde ele estudava, e as cartas pararam de vez.

eu não tinha mais vida, entrei em uma depressão profunda e culpava meus tios por ele ter parado o contato. odiava o casal, odiava também meus pais, que fingiam que nada acontecia. repeti o último ano do colégio duas vezes, parei de viver, mas meus pais continuavam atuando como uma família perfeita.

três anos depois, na festa de bodas de ouro de nossos avós, ele voltou. eu não esperava, eu já estava melhor, mas a tristeza ainda estampava meu rosto.

eu nunca senti nada parecido como quando o revi. achei verdadeiramente que meu coração fosse sair pela boca, que eu fosse morrer sem ar.

assim que ele passou pela entrada principal do salão de festas, incrivelmente lindo, percebi que estava de mãos dadas com um rapaz claramente estrangeiro.

fui correndo para casa rasgar todas as nossas cartas e fotos na mesma hora. ele nunca falou comigo e o odeio até hoje, 49 anos depois.